
Começaram por invadir o quotidiano dos lisboetas nos finais do século XIX. Inicialmente de tracção animal e chamados de “americanos” por serem fabricados do outro lado do Atlântico, cedo os eléctricos se constituíram como um prático sistema de transporte colectivo, emprestando um maior cosmopolitismo à capital portuguesa e proporcionando uma maior mobilidade aos alfacinhas.
O emaranhado de linhas que cedo começou a cobrir as principais ruas da cidade, provendo-a de uma rede de transportes que respondesse às necessidades cada vez mais prementes de uma industrialização tão imperiosa como inadiável e de um comércio que florescia com o aproximar do novo século, fazia do eléctrico a primeira estrela de uma constelação onde progressivamente viriam a entrar o automóvel, o autocarro e o metropolitano, grandes responsáveis, de resto, pelo ocaso de tão popular meio de transporte citadino.
Ultrapassado por concorrentes mais cómodos, mais rápidos e de maior mobilidade, o eléctrico – nos moldes em que, há mais de cem anos, fizera a sua triunfal entrada na vida das pessoas – viu a sua aura empalidecer progressivamente, a sua influência ser drasticamente diminuída, o seu espaço de manobra a precipitar-se no vazio.
De uma vasta teia que em tempos cerziu o tecido da malha urbana de Lisboa, que unia pontos tão distantes como o Beato à Cruz Quebrada, a Praça da Figueira a Benfica, a linha do eléctrico 28 é ainda das poucas que resiste. E é, em boa parte graças ao fenómeno turístico, que se dá a sua revitalização e se mudam as agulhas da via que, inexoravelmente, iria levar ao seu encerramento.
Eu que, por razões que a vida tece, pouco me cruzara até aqui com eléctricos ou, melhor dito, pouco fiz depender o meu quotidiano das rotineiras viagens dos “amarelos”, por via de uma oficina de escrita, onde achei por bem participar, acabei por ter o 28 a acompanhar-me num domingo chuvoso, daqueles que, de tão desagradáveis, deixam quase irreconhecível a luminosa Lisboa e, ensimesmada, como que à beira de um ataque de nervos.
Grossas bátegas de água, anunciadas com assinalável antecedência, punham definitiva e irremediavelmente fim a um Verão que teimava em ser longo, persistente, seco e quente, remetendo-me a uma inconformada saudade de casa, onde, numa cumplicidade de anos, faço dos encontros com os livros e com a escrita, os campos onde vou depositando as sementes do meu encantamento.
Por isso mesmo, nunca, como agora, a chegada de um eléctrico, fora para mim tão providencial. Nunca, como neste momento de tamanho desconforto, em que esta chuva pesada e lúgubre me fizera lembrar, por momentos, os dolorosos invernos da minha meninice, a visão do 28 ao longe, a descer dos Prazeres e a fazer a sua entrada para junto da Basílica da Estrela, fora, no mais íntimo de mim mesmo, tão efusivamente festejada.
Quase tão velho como a República, o eléctrico 28 leva-nos, através de um percurso sinuoso, à descoberta de uma Lisboa ora burguesa ora institucional, ora boémia, literata e operária. Para mim, por força do que já conheço, por via do que me toca mais fundo, é mais uma viagem à volta de sentimentos, de estados de alma, do que a simples contemplação de monumentos e lugares.
Por ruas estreitas, becos tortuosos e alcantiladas artérias de algumas das principais colinas por onde se espalha a zona velha desta milenar capital, o 28 faz-nos mergulhar bem fundo na história desta cidade, onde muita da história do país se construiu, onde se arquitectou muita da efémera glória que, ainda hoje, inultilmente não nos cansamos de cantar, de onde saiu e continua a sair, desta cidade incomparável, muita da miséria, da tristeza, da dor e luto em que a esta pátria se foi enleando.
Durante esta breve viagem, é de tal ordem a força e a intensidade com que somos tocados pelo vigor do nosso passado, por estes lugares onde muito do ouro de Minas Gerais se esvaiu em ostentações vãs, por sítios onde mais se fez sentir a dantesca força do fenómeno telúrico que arrasou a cidade – castigo de deuses em dia santo, acrescentando fileiras intermináveis de mortos aos mortos que se celebrariam no dia a seguir -, locais onde se desenrolaram as mais arrebatadoras histórias de alcova e ardorosas tramas de amor saídas das mais prolíferas mentes dos nossos mais aclamados escritores.
Ruas por onde se torturavam ideias, massacravam corpos e, dois quarteirões acima, se davam à estampa notícias dos silêncios que nos atormentavam; ruas por onde passeou Gungunhana agrilhoado, para se esconder o estertor de um império sonhado; imponentes praças onde se assassinou um rei para se acabar com o despudor de uma oligarquia para quem tanto fazia o atraso e a miséria do país; lugar de pensões famosas pelos fortuitos encontros de não menos famosas meretrizes com a nata endinheirada da sociedade; espelho, durante décadas a fio, de um regime que nos usurpou a consciência, que nos vilipendiou a alma, que nos apagou, deliberadamente, a identidade; sítios de pavorosos incêndios, de madrugadas redentoras.
Tudo isso eu percorro, com o 28, nesta tarde chuvosa de domingo. No banco à minha beira, uma italiana ruiva dorme no ombro de uma amiga, que se entretém a rabiscar num mapa de Lisboa. Dois bancos atrás, dois ingleses de meia idade, cabelo rapado, camisas de xadrez de manga curta, perscrutam pelas nesgas de um eléctrico à pinha, o mundo de interrogações que, a custo, conseguem vislumbrar pelas janelas. Lá à frente, no banco lateral, uma namorada espanhola, sentada no colo do seu companheiro, pareceu-me, na vivacidade do seu olhar, ser a mais curiosa de todos os turistas que compartilhavam comigo a viagem.
Havíamos passado já o Chiado e entrado na António Maria Cardoso. Descemos a Vítor Cordon, desaguando na rua da Conceição. Com a Sé à vista, o eléctrico preparava para fazer-se agora à íngreme encosta do Castelo em direcção à Graça, o nosso derradeiro destino.
Começávamos a deixar o coração de Lisboa, preparando-nos para penetrar-lhe na alma. Mas isso são outras histórias.