Valência hoje

Há gente interessada em reprimir: governos, juízes, polícia. Gente interessada em mostrar que o seu “sistema” tem regras e que ninguém (ninguém, ouviram bem!) poderá subvertê-las. Caso contrário…

Este vídeo retirado de “El País” retrata a violência gratuita da polícia durante protestos de jovens estudantes em Valência. Repare-se ao segundo 00,08, como um esbirro da polícia empurra duas jovens contra um automóvel em andamento.

Oxalá me engane, mas adivinho problemas. Também aqui.

A notícia do jornal pode ser vista neste link.

Bookmark and Share
Posted in Blogue | Leave a comment

Dilema

dilema

Bookmark and Share
Posted in Cartoon | Leave a comment

Coitado…

coitado

Bookmark and Share
Posted in Cartoon | Leave a comment

A Ordem Criminosa do Mundo

mundo2a


A situação que Portugal atualmente atravessa não tem as suas causas únicas nos problemas estruturais do país. Tal como as descomunais dificuldades por que passam países como a Grécia, a Irlanda, a Espanha e a Itália, de uma forma mais aguda, ou, em diferentes graus de intensidade, os restantes países europeus, não são apenas questões isoladas de cada um desses Estados.

Tudo isto está interligado e indicia ser esta uma questão crucial para o capitalismo como sistema político. O crescente desemprego em todo o mundo e a incapacidade dos governos para dar resposta ao flagelo, filho do próprio sistema, levam a que, um pouco por toda a parte, os focos de tensão cresçam, a contestação popular alastre e se note já a bota da repressão a aparecer disfarçada de mecanismo de salvaguarda das instituições.

Este trabalho de televisão espanhola que apresento hoje aqui e que me foi suscitado pela consulta ao blogue da agência Carta Maior, foi emitido em 2008. Passados três anos ele mantém, como se verá, uma espantosa atualidade.

O programa assenta basicamente nos depoimentos de duas pessoas, de dois conhecidos estudiosos do sistema da economia-mundo: Eduardo Galeano, jornalista, escritor e pensador uruguaio e Jean Ziegler, sociólogo suiço e consultor das Nações Unidas. Através da sua esclarecida e fundamentada opinião somos levados à descoberta das respostas para muitas das perguntas que ultimamente nos têm apoquentado, mormente a mais lógica de todas: mas afinal o que se passa?


Os pontos essenciais destacados pela Carta Maior

Em novembro de 2008, a TVE (Espanha) exibiu um documentário intitulado “A ordem criminosa do mundo”. Nele, Eduardo Galeano, Jean Ziegler e outras personalidades mundiais falam sobre a transformação da ordem capitalista mundial em um esquema mortífero e criminoso para milhões de pessoas em todo o mundo. Mais de três anos depois, o documentário permanece mais atual do que nunca, com alguns traços antecipatórios da crise que viria atingir em cheio também a Europa. Reproduzimos aqui o vídeo, legendado em português, e algumas das principais afirmações de Galeano e Ziegler:

“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis”

“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis. Não estão submetidos a nenhum controle social, sindical, parlamentar. São homens nas sombras que procuram o governo do mundo. Atrás dos Estados, atrás das organizações internacionais, há um governo oligárquico, de muito poucas pessoas, mas que exercem um controle social sobre a humanidade, como jamais Papa algum, Imperador ou Rei teve”. (Jean Ziegler)

“O atual sistema universal de poder converteu o mundo num manicômio e num matadouro” (Eduardo Galeano).

“A globalização é uma grande mentira”

“O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objetivo: buscar o lucro máximo. A globalização é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: Vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é de uma economia de arquipélagos que a globalização criou” (Jean Ziegler).

“Há três organizações muito poderosas que regulam os acontecimentos econômicos: Banco Mundial, FMI e OMC; são os bombeiros piromaníacos. Elas são, fundamentalmente, organizações mercenárias da oligarquia do capital financeiro invisível mundial” (Jean Ziegler).

“Eu não creio que se possa lutar contra a pobreza e criar uma estratégia de luta contra a pobreza sem lutar contra a riqueza, contra os ricos, pois os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres” (José Collado, Missionário em Níger).

“Todos os dias neste planeta, segundo a FAO, 100 mil pessoas morrem de fome ou por causa de suas consequências imediatas” (Jean Ziegler).

“O dicionário também foi assassinado”

“Hoje as torturas são chamadas de “procedimento legal”, a traição se chama “realismo”, o oportunismo se chama “pragmatismo”, o imperialismo se chama “globalização” e as vítimas do imperialismo, “países em vias de desenvolvimento. O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem, ou não sabemos o que dizem” (Eduardo Galeano).

“Se hoje eu digo que faz falta uma rebelião, uma revolução, um desmoronamento, uma mudança total desta ordem mortífera e absurda do mundo, simplesmente estou sendo fiel á tradição mais íntima, mais sagrada da nossa civilização ocidental. O nosso dever primordial hoje deve ser reconquistar a mentalidade simbólica e dizer que a ordem mundial, tal como está, é criminosa. Ela é frontalmente contrária aos direitos do homem e aos textos fundacionais das nossas civilizações ocidentais” (Jean Ziegler).

“Se houvesse uma só morte por fome em Paris haveria uma revolta”

“A primeira coisa que devemos fazer é olhar para a situação de frente e não considerar como normal e natural a destruição, por exemplo, de 36 milhões de pessoas por culpa da fome e da desnutrição. Se houvesse uma só morte por fome em Paris haveria uma revolta. De nenhum modo devemos permitir que as grandes organizações de comunicação nos intimidem, nem as fábricas das teorias neoliberais das grandes corporações, pois todas as corporações se ocupam, primeiro, de controlar as consciências, de controlar como podem a imprensa e o debate público” (Jean Ziegler).

O Documentário



Bookmark and Share
Posted in Blogue | Leave a comment

Inconsolável

queridolider2a

Bookmark and Share
Posted in Cartoon | Leave a comment

Tormentas

tormentas

Bookmark and Share
Posted in Cartoon | Leave a comment

Parecenças

Parecenças

Bookmark and Share
Posted in Cartoon | Leave a comment

Previsões é com ele!

obamacavaco

Bookmark and Share
Posted in Cartoon | Leave a comment

Crónica amargurada em torno de um eléctrico

28-2a

Começaram por invadir o quotidiano dos lisboetas nos finais do século XIX. Inicialmente de tracção animal e chamados de “americanos” por serem fabricados do outro lado do Atlântico, cedo os eléctricos se constituíram como um prático sistema de transporte colectivo, emprestando um maior cosmopolitismo à capital portuguesa e proporcionando uma maior mobilidade aos alfacinhas.

O emaranhado de linhas que cedo começou a cobrir as principais ruas da cidade, provendo-a de uma rede de transportes que respondesse às necessidades cada vez mais prementes de uma industrialização tão imperiosa como inadiável e de um comércio que florescia com o aproximar do novo século, fazia do eléctrico a primeira estrela de uma constelação onde progressivamente viriam a entrar o automóvel, o autocarro e o metropolitano, grandes responsáveis, de resto, pelo ocaso de tão popular meio de transporte citadino.

Ultrapassado por concorrentes mais cómodos, mais rápidos e de maior mobilidade, o eléctrico – nos moldes em que, há mais de cem anos, fizera a sua triunfal entrada na vida das pessoas – viu a sua aura empalidecer progressivamente, a sua influência ser drasticamente diminuída, o seu espaço de manobra a precipitar-se no vazio.

De uma vasta teia que em tempos cerziu o tecido da malha urbana de Lisboa, que unia pontos tão distantes como o Beato à Cruz Quebrada, a Praça da Figueira a Benfica, a linha do eléctrico 28 é ainda das poucas que resiste. E é, em boa parte graças ao fenómeno turístico, que se dá a sua revitalização e se mudam as agulhas da via que, inexoravelmente, iria levar ao seu encerramento.

Eu que, por razões que a vida tece, pouco me cruzara até aqui com eléctricos ou, melhor dito, pouco fiz depender o meu quotidiano das rotineiras viagens dos “amarelos”, por via de uma oficina de escrita, onde achei por bem participar, acabei por ter o 28 a acompanhar-me num domingo chuvoso, daqueles que, de tão desagradáveis, deixam quase irreconhecível a luminosa Lisboa e, ensimesmada, como que à beira de um ataque de nervos.

Grossas bátegas de água, anunciadas com assinalável antecedência, punham definitiva e irremediavelmente fim a um Verão que teimava em ser longo, persistente, seco e quente, remetendo-me a uma inconformada saudade de casa, onde, numa cumplicidade de anos, faço dos encontros com os livros e com a escrita, os campos onde vou depositando as sementes do meu encantamento.

Por isso mesmo, nunca, como agora, a chegada de um eléctrico, fora para mim tão providencial. Nunca, como neste momento de tamanho desconforto, em que esta chuva pesada e lúgubre me fizera lembrar, por momentos, os dolorosos invernos da minha meninice, a visão do 28 ao longe, a descer dos Prazeres e a fazer a sua entrada para junto da Basílica da Estrela, fora, no mais íntimo de mim mesmo, tão efusivamente festejada.

Quase tão velho como a República, o eléctrico 28 leva-nos, através de um percurso sinuoso, à descoberta de uma Lisboa ora burguesa ora institucional, ora boémia, literata e operária. Para mim, por força do que já conheço, por via do que me toca mais fundo, é mais uma viagem à volta de sentimentos, de estados de alma, do que a simples contemplação de monumentos e lugares.

Por ruas estreitas, becos tortuosos e alcantiladas artérias de algumas das principais colinas por onde se espalha a zona velha desta milenar capital, o 28 faz-nos mergulhar bem fundo na história desta cidade, onde muita da história do país se construiu, onde se arquitectou muita da efémera glória que, ainda hoje, inultilmente não nos cansamos de cantar, de onde saiu e continua a sair, desta cidade incomparável, muita da miséria, da tristeza, da dor e luto em que a esta pátria se foi enleando.

Durante esta breve viagem, é de tal ordem a força e a intensidade com que somos tocados pelo vigor do nosso passado, por estes lugares onde muito do ouro de Minas Gerais se esvaiu em ostentações vãs, por sítios onde mais se fez sentir a dantesca força do fenómeno telúrico que arrasou a cidade – castigo de deuses em dia santo, acrescentando fileiras intermináveis de mortos aos mortos que se celebrariam no dia a seguir -, locais onde se desenrolaram as mais arrebatadoras histórias de alcova e ardorosas tramas de amor saídas das mais prolíferas mentes dos nossos mais aclamados escritores.

Ruas por onde se torturavam ideias, massacravam corpos e, dois quarteirões acima, se davam à estampa notícias dos silêncios que nos atormentavam; ruas por onde passeou Gungunhana agrilhoado, para se esconder o estertor de um império sonhado; imponentes praças onde se assassinou um rei para se acabar com o despudor de uma oligarquia para quem tanto fazia o atraso e a miséria do país; lugar de pensões famosas pelos fortuitos encontros de não menos famosas meretrizes com a nata endinheirada da sociedade; espelho, durante décadas a fio, de um regime que nos usurpou a consciência, que nos vilipendiou a alma, que nos apagou, deliberadamente, a identidade; sítios de pavorosos incêndios, de madrugadas redentoras.

Tudo isso eu percorro, com o 28, nesta tarde chuvosa de domingo. No banco à minha beira, uma italiana ruiva dorme no ombro de uma amiga, que se entretém a rabiscar num mapa de Lisboa. Dois bancos atrás, dois ingleses de meia idade, cabelo rapado, camisas de xadrez de manga curta, perscrutam pelas nesgas de um eléctrico à pinha, o mundo de interrogações que, a custo, conseguem vislumbrar pelas janelas. Lá à frente, no banco lateral, uma namorada espanhola, sentada no colo do seu companheiro, pareceu-me, na vivacidade do seu olhar, ser a mais curiosa de todos os turistas que compartilhavam comigo a viagem.

Havíamos passado já o Chiado e entrado na António Maria Cardoso. Descemos a Vítor Cordon, desaguando na rua da Conceição. Com a Sé à vista, o eléctrico preparava para fazer-se agora à íngreme encosta do Castelo em direcção à Graça, o nosso derradeiro destino.

Começávamos a deixar o coração de Lisboa, preparando-nos para penetrar-lhe na alma. Mas isso são outras histórias.

Bookmark and Share
Posted in Blogue | 3 Comments

Os dois 11 de Setembro

2x11.set


Nestes últimos dias, os média tem-nos inundado com imagens e pungentes testemunhos do ataque que os Estados Unidos da América foi vítima no dia 11 de Setembro de há dez anos, que teve no dantesco desabar das torres gémeas, no coração de Nova Iorque, a sua expressão mais tétrica e visível.

Para além do colossal número de vítimas, esta série de atentados colocou uma nação inteira em estado de choque – com todo o mundo a acompanhá-la em tamanho estupor -, e os seus habitantes, que sempre se preocuparam pouco em saber das razões das malfeitorias que o “Império” fazia e continua a fazer por esse mundo de tantos deuses afora, a questionarem-se “Porquê contra nós?”, “Porque é que nos odeiam tanto?”

Deveria ser objectivo dos jornais e das televisões, com uma importante função pedagógica a desempenhar, tentar responder a estas questões que, muito justamente, ainda atormentam a existência a milhões de norte-americanos. Mas, ao contrário, contam-nos apenas metade da história. Reacendem as feridas, reavivam os ódios, sem tocarem no essencial. Sem sequer, mesmo que ao de leve seja, abordarem a multiplicidade de fenómenos que provocaram essas chagas que ainda sangram.

Neste artigo de Luís Hernández Navarro, correspondente na cidade do México da agência Carta Maior, donde foi retirado, somos bem capazes de encontrar algumas das respostas de que os súbditos de Obama andam há muito à procura.


No dia 11 de setembro de 1973 um golpe militar derrubou no Chile o governo do socialista Salvador Allende. A partir desse momento, com o apoio dos falcões de Washington, caiu sobre a maioria dos países da América Latina a noite sombria das ditaduras militares, a repressão e o desmantelamento das conquistas sociais. O Chile se converteu no grande laboratório neoliberal de onde seriam exportadas suas políticas para todo o mundo. Sacrificando Allende se quis frear as lutas de libertação no continente.

O 11 de setembro de 2001, o ataque às Torres Gêmeas em Nova York serviu como pretexto para que o governo de George W. Bush fizesse da guerra contra o terrorismo o instrumento principal para instaurar um novo poder constituinte. No calor da tragédia, os EUA fixaram uma nova doutrina de segurança nacional na qual advertiram que não tolerariam desafios ao seu poder, defendem a ação militar solitária em defesa da unidade nacional, sustentam o direito de efetuar ataques preventivos em qualquer parte do mundo e advertem que a dissuasão contra inimigos que “odeiam os EUA e tudo o que representam” é inútil.

Os dois 11 de setembro são datas que marcam o início de ofensivas do Império para reforçar seus interesses e abrir no continente americano e no Oriente Médio um novo ciclo de dominação e de acumulação de capital. No primeiro caso, o golpe de Estado serviu para frear o avanço da esquerda e das forças nacional-populares no Cone Sul, aprofundar a penetração do capital estadunidense e ampliar a presença militar. No segundo, permitiu à Casa Branca, com o pretexto do combate ao fundamentalismo religioso, avançar no controle dos recursos petroleiros no Oriente Médio e fazer da guerra parte do ciclo de expansão e consolidação da globalização neoliberal. Seu objetivo foi impor uma nova ordem internacional unilateral; estabelecer, pela lógica do fato consumado, um governo autoritário da globalização.

Os dois 11 de setembro reafirmaram o “excepcionalismo” estadunidense. Em 1787, James Madison, conhecido como o “pai da Constituição” dos Estados Unidos, assinalou que o objetivo principal do governo devia ser “proteger a minoria opulenta da maioria”. Em plena Convenção Constitucional, expressou que temia que o número cada vez maior de habitantes que sofriam as desigualdades da sociedade “suspirasse secretamente por uma distribuição mais equitativa dos bens”. A democracia, sentenciou, devia ser reduzida.

Nessa época, outro dos “pais fundadores” desse país, Thomas Jefferson, afirmou: “Estou persuadido que nunca houve nenhuma constituição tão bem calculada como a nossa para a expansão imperial e o autogoverno”.
Quase dois séculos depois, primeiro Richard Nixon e depois George W. Bush se empenharam em tornar realidade em escala planetária a missão que Madison atribuía ao governo e que Jefferson atribuía à Constituição de seu país.

A 38 anos do primeiro 11 de setembro e dez do segundo, na América Latina os povos resistem. Derrubaram as ditaduras militares da década dos setenta e meados dos oitenta e abriram a porta para que candidatos de centro-esquerda ganhassem as eleições. Antes do triunfo eleitoral, já tinha se produzido uma vitória cultural. O que o Império quis evitar com o Golpe de Estado no Chile renasceu por outras vias. As aventuras imperiais de Washington no Oriente Médio debilitaram o controle sobre a área que era considerada o quintal dos Estados Unidos.

Os governos progressistas na América Latina impulsionaram um processo de reconstrução da arquitetura do poder e da geopolítica na região. Há no continente uma redefinição profunda das relações e da inserção com os Estados Unidos, que se expressa tanto no rechaço das políticas da Casa Branca como no surgimento de um novo tecido institucional para favorecer a integração regional. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) foi torpedeada e, no Equador, não se renovou o contrato para que os EUA utilizassem a base militar de Manta. Também na contramão de Washington, a solidariedade com Cuba e as relações diplomáticas ativas com o Irã tem sido uma constante. O investimento chinês cresceu vertiginosamente. Com dificuldades, uma proposta pós-neoliberal abre caminho na região.

Ironias da história, dois 11 de setembro depois, o legado de Salvador Allende na região está mais vivo do que nunca.

Bookmark and Share
Posted in Blogue | Leave a comment