Finou-se na Pensão América
July 20th, 2009
Era ridícula a figura que o defunto fazia. Melhor, era ridícula a figura que faziam fazer ao defunto. A cara, já de si pouco católica em vida, ainda fora exposta ao vexame de ter um lenço branco que lhe segurava o queixo, circundando-lhe ambos os hemisférios já macilentos da cara, para rematar no alto da cabeça calva com um nó do mesmo género daqueles que se dão nos atacadores dos sapatos.
Costume velho em Santa Maria dos Anjos, tal como em todas as terras das redondezas, esse de recorrerem a ataduras com lenços para se fecharem as bocas dos falecidos, evitando assim que alguém fosse acusado de ser cúmplice com a desalmada da morte que, sorrateira, implacável e impiedosa, apanhava as vidas descalças, com as bocas escancaradas, a meio certamente de uma qualquer revelação surpreendente.
Amável Barata, o empregado corcunda da funerária Caldeira — a quem foram entregues as exéquias por ser a mais prestigiada da vila — confidenciava virado para Eugénio Fonseca, dono da farmácia Victória, que, apesar de ter conseguido a gigantesca façanha de sentar, sem a ajuda de ninguém, dizia ele, o pesado corpo do falecido numa minúscula banheira de folha e lavá-lo com água morna, abundantemente perfumada com flores de laranjeira para que as partes baixas deixassem de cheirar a bedum, sentira-se impotente para lhe fechar a boca, pelo que se vira obrigado, muito a contragosto, a desarticular-lhe o maxilar inferior com uma enérgica torção, recorrendo depois ao habitual esquema do lenço para conseguir vedar-lhe a matraca. Aos olhos, a esses, de tão esbugalhados que estavam, teve de lhes dar um pequeno ponto nas pálpebras com agulha e linha preta para mantê-los cerrados, emprestando-lhes dessa forma uma postura muito mais digna e solene.
Que não havia outro remédio, sussurrou o malotinha com um dar de mãos e um encolher de ombros acomodado, notando-se-lhe ao mesmo tempo no rosto que se esforçava por colher a simpatia do seu interlocutor a quem, entretanto, se vieram juntar, precisamente por esta ordem, Pompílio Mendes, oficial de diligências, Avelino Vinagre, o aferidor da Câmara, o doutor Agnelo Nunes, notário da terra, Aquino Madeira e Quirino Varela, sócios maioritários da gráfica Coelho, todos sem excepção mais interessados em ouvir da boca do cangalheiro o desvendar surpreendente das práticas pouco ortodoxas da sua profissão, do que a velarem em recolhido silêncio o morto, que, com a placidez de um conformado, começava a saborear pela primeira vez os prazeres da eternidade.
4. Tudo nos cai em cima
December 14th, 2008
Quando, em 22 de Janeiro de 1961, o paquete Santa Maria foi sequestrado por um grupo de vinte homens comandados pelo capitão Henrique Galvão, estavam os portugueses longe de imaginar – e muito menos eu, nos princípios da minha adolescência – que esse ano iria ser marcado por acontecimentos de tal forma cruciais para o regime do ditador de Santa Comba, que ficaria para a História como início do desmoronamento do império, o claro prenúncio do colapso do sistema.
Se outro mérito não tivesse, esta acção de Henrique Galvão e dos seus homens veio, num abrir e fechar de olhos, alertar a opinião pública mundial para a crua realidade portuguesa, fazendo levantar o véu que cobria a opressão de que éramos vítimas e chamando a atenção para o atraso em que desafortunadamente nos víamos mergulhados.
Este acto, que o regime atribuiu a um grupo de bandoleiros, pretendendo dessa forma canhestra esvaziá-lo de qualquer conotação política, conseguiu trazer mais solidariedade internacional a quem, na árdua e dura luta da clandestinidade, clamava pela instauração de um regime de liberdade em Portugal, e veio despertar consciências, quer cá quer lá fora, para a necessidade de ser modificada radicalmente a realidade política e social das nossas colónias, construída, também ela, na base do despotismo, do subdesenvolvimento e da espoliação das suas riquezas pelo poder absoluto da oligarquia reinante na metrópole, de quem Salazar era servo e mandarete.
E tanto foi assim que desde aquele momento até à sua aparatosa e providencial queda da cadeira em 1968, nunca mais o ditador teve uma noite de sono tranquila.
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3. As Grandes Mudanças
December 13th, 2008
Em meados do século passado os Arcos era o reflexo, nem a mais nem a menos, daquilo que era o próprio país, isto é, um conjunto de aglomerados dispersos, rurais e atrasados, incapazes de gerar a riqueza indispensável — pelo menos essa — à sobrevivência das almas que nele tinham nascido.
E esse facto era comprovado na prática pelas sucessivas levas de emigrantes do pós-guerra, para o Brasil primeiro, a partir de meados da década de 50, e logo a seguir para a França e Alemanha, ao longo de todos os anos 60.
E eu vivia nisto, na inocência dos meus poucos anos, sem me aperceber — eu e os ganapos que se fizeram comigo por esse Seixal da Valeta fora — das ciclópicas e inenarráveis dificuldades por que quase todos os nossos pais passavam para nos porem à mesa, dia após dia, aquilo que nos fez medrar e um dia ser homens.
Na santa paz da ignorância, ninguém que vivia no lodaçal desta estagnação se apercebia que o mundo estava em acelerada mudança. E algumas das transformações que precipitavam essa mudança, alguns desses acontecimentos, como a independência da Índia em 47, a proclamação da República Popular da China, em 1 de Outubro de 49, e a derrota das tropas francesas em Dien-Bien-Phu em 54, que determinou o fim da guerra na Indochina, apesar de factos longínquos, de terem ocorrido do outro lado de lá do mundo, vieram a ter, aqui neste canto, uma influência decisiva, directa ou indirectamente, em todas as nossas vidas. Não num futuro difuso e longínquo, mas ali, mesmo ao virar da esquina do tempo. Eles estiveram na génese de todas as novas nações africanas, da criação dos movimentos de libertação das nossas ex-colónias, da guerra colonial, do desmoronar do regime caduco e opressor de Salazar e, por fim, do movimento militar que viria a culminar no nosso 25 de Abril.
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2. A Inesperada Tragédia
December 12th, 2008
A distância dos muitos anos passados e a memória já sem aquela frescura da adolescência, não me permitem situar com precisão no tempo a história que comecei aqui a esboçar.
Sei, reconhecendo não ser o rigor milimétrico de importância essencial, que ocorre algures entre 15 de Março de 1961, altura em que, no norte de Angola, a UPA, mais tarde transformada em FNLA, chacinou à catanada, brancos e pretos, na mais completa perversão daquilo que pouco depois, alastrando à Guiné e a Moçambique, viria a ser a luta de libertação dos povos destes três territórios contra o colonialismo português, e 19 de Dezembro desse mesmo ano, data em que as tropas da União Indiana decidiram expulsar, pela força das armas, o exército ocupante das possessões até então portuguesas de Goa, Damão e Diu.
Vivia-se na altura em Portugal um clima de justa indignação face à forma cruel como se deu o começo desses distúrbios em Angola que, como é sabido, marcaram o início de uma longa e catastrófica guerra colonial que viria a ceifar a vida de milhares dos nossos jovens, por exclusiva culpa da casmurrice de um regime decrépito que nunca soube trilhar os caminhos com que se escreve a História.
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1. A Espada de D. Nuno
December 11th, 2008
Não sei há quanto tempo foi: lembro-me apenas que por essa altura o motivo de todas as conversas dos adultos era uma guerra entre pretos e brancos que rebentara lá para os lados de Angola e em que o objectivo — ouvira-o um dia, atónito, da boca do tio Carlos barbeiro que, dirigindo-se dolorido e inconformado à sua clientela, amarfanhava, por entre os dedos papudos e humedecidos pelo suor, as páginas ainda frescas do Primeiro de Janeiro — era roubarem-nos aquilo que por direito era nosso há quase quinhentos anos, tentando correr connosco de lá à catanada.
Era no tempo em que permaneciam ainda bem vivos na nossa memória os ecos da mais profunda e generalizada estupefacção pelo facto, ainda hoje não totalmente digerido, de uma cadela russa andar a gravitar por cima das nossas cabeças dentro duma espécie de panela de pressão, só que um pouco maior, que ficou para a posteridade com o nome de sputnik.
Pois foi exactamente por essa altura que o governo da nação, numa tentativa de fazer exaltar o espírito patriótico do seu rebanho e minorar, escamotear até, os efeitos psicológicos da guerra que lhe batia à porta, principalmente junto daquelas famílias cujos filhos começavam a partir, se lembrou de mandar vir em peregrinação pelo país a espada que D. Nuno Álvares Pereira usara na batalha de Aljubarrota.
Percorrida boa parte de Portugal nesta apologética romaria, aproximava-se a vez dos Arcos.
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Amigos Comuns
December 10th, 2008
O conceito em que António Ramada era tido entre os seus colegas de trabalho, subordinados ou mesmo superiores, era o de um tipo esperto. Sempre se soubera ser difícil alguém lhe passar a perna mas, se não se cuidassem, o mais provável era o inverso ser verdadeiro.
Tinha quarenta e três anos, era licenciado em engenharia de sistemas, casado e pai de três filhos, trabalhando em Carnaxide, junto a Lisboa, como director de departamento de uma multinacional americana da área das comunicações. Estava bem de vida, o engenheiro Ramada.
Naquele dia, pouco passava das onze, deparou-se com uma carta registada vinda do comando da GNR em Lisboa. Queria aquela corporação saber quem, às dez horas e vinte da manhã, do dia 22 de Novembro, e ao quilómetro 56 da A-1, a auto-estrada do norte, conduzia a viatura que identificava na linha a seguir.
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O Sorriso
September 13th, 2008
Já com muitos adeptos entre quem escreve, o micro-conto é uma história muito curta, apenas com duas regras bem definidas: que faça sentido e que não exceda as 60 palavras, incluindo as do título.
Esta que aqui vos deixo hoje tem 45.
A ilustração é de Jim Borgman, que foi durante 32 anos caricaturista editorial do Cicinnati Enquirer, donde saiu no passado dia 3.
O Sorriso
Eram quase sete horas quando o polícia me mandou parar.
Pediu-me os documentos.
Perguntei-lhe para quê.
Disse-me porque lhe apetecia.
Respondi-lhe: não dou!
E emprestar, empresta? Perguntou-me ele, com um sorriso.
Lá lhe entreguei os documentos. Nunca resisti ao sorriso de um polícia.
Zout?!
September 6th, 2008
Ilustração de Jim Borgman
? Não se importa de me passar daí o sal, por favor?
? Isto?
? Não, o sal! Sal, sale, sel, salt, salz, sól, zout, tuz!
? Está bem, mas não é preciso fazer nenhum discurso político, que eu já percebi!…
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