Ópera do Malandro
June 6th, 2010
«A Ópera dos três vinténs» de Bertold Brecht serviu de fonte inspiradora a Chico Buarque para escrever «A Ópera do Malandro» – ainda hoje um musical de incontornável sucesso -, que o realizador Ruy Guerra, por seu turno, levou ao cinema em 1985. O excerto do filme que hoje mostro aqui, é uma cena de antologia e representa o confronto entre a noiva Teresinha (Claudia Ohana) e a amante Margot (Elba Ramalho) do crápula/malandro Max Overseas (Edson Celulari), cantando «O Meu Amor»
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Revisitar os “Chubb-Chubbs”
May 30th, 2010Foi o primeiro vídeo a ser aqui colocado, já lá vão três anos, e um dos primeiros posts de “Abaixo o Presidente!”.
Continua a ser um dos filmes de animação produzido em software Maya que mais me fascinam. Para isso contribui quer a sua elevada qualidade gráfica, quer a sua história que, como todos os equívocos explorados de forma inteligente, resultam sempre em exemplares exercícios de humor.

O Atentado
May 22nd, 2010
Esta história foi escrita no regresso de uma viagem a Guadaloupe, ilha francesa das Antilhas, onde, da escravatura, África fez germinar e deu alimento a uma cultura crioula diferente de tudo até ali.
O longo tempo de uma escala que me faria voltar a Lisboa, o observar da lufa-lufa frenética que se vive num aeroporto internacional com a importância do de Orly, na capital francesa, forneceu-me os ingredientes para escrever a história.
Já lá vão três anos e muita coisa mudou desde então. Nomeadamente na Casa Branca, em Washington, onde um cretino deu lugar a um homem negro que se constituiu como semente e no qual muita gente viria a depositar uma justa esperança de mudança.
Guantánamo porém – o Guantánamo dos meus receios -, ainda por lá permanece.
A emissão foi interrompida, pouco passava das onze, para uma notícia de última hora: Uma bomba de fraca potência explodira na gare sul do aeroporto de Orly, em Paris. Não tinha havido vítimas mortais nem feridos, dizia o locutor de fato azul e gravata lilás dando mostras de algum alívio, e os danos resumiam-se a uns escassos estragos materiais. O atentado ainda não fora reivindicado mas, acrescentava o sujeito especulativo — remetendo certamente a atenção dos espectadores para os próximos flashes noticiosos —, não seria de excluir a hipótese da acção ter sido perpetrada pela Al-Qaeda ou algum ramo dela próximo.
Esta notícia, que não o seria se alguém não se tivesse lembrado de lhe associar o nome sempre carregado de terríveis e misteriosas conotações da Al-Qaeda, ter-me-ia passado completamente ao lado se, naquele momento e àquela hora do dia 29 de Maio passado, eu não estivesse precisamente na gare sul do aeroporto de Orly, em Paris, bem no centro daquele acontecimento, à espera de um avião da Ibéria que me levasse de volta a Lisboa.
Para ser franco eu ouvira, talvez uns três quartos de hora antes, um forte estrondo vindo do outro extremo da gare e vira, por cima do ombro duma senhora gorda que estava à minha frente, gente a correr por tudo quanto era lado. Mas como nos aeroportos, constantemente em obras, sempre se ouviram barulhos estranhos e é normal verem-se as pessoas, excitadas, a correr de um lado para o outro, não atribui qualquer significado ao assunto. Ainda por cima, acrescente-se, eu estava entretido, como o faço tanta vez, a ver os escaparates duma livraria onde a tal senhora gorda, colocada entre mim e a montra, folheava um dicionário qualquer da Larousse. Fiz de conta, portanto, que não era nada comigo — como não era, realmente —, e deixei-me estar tranquilo no meu canto.
Sentei-me pouco depois num banco do largo corredor fronteiro à livraria, e mergulhei na leitura de um livro de Pirandelo que me acompanhava desde casa. Quando vi a hora aproximar-se, fui fazer o check-in e submeter-me a todas aquelas formalidades de segurança habituais, dirigindo-me depois para a porta 10, onde estava previsto embarcar.
Pensava estar eu tranquilo, sentado a tomar uma chávena de cacau que me custou os olhos da cara, quando, no tampo brilhante da mesa, vejo o reflexo difuso de vultos a aproximarem-se. Ergui os olhos lentamente e, para completo assombro meu, vi-me confrontado com a presença de uma mulher-polícia e três soldados armados com metralhadoras, que pareciam querer fulminar-me com os olhos.
«É desta que vou dentro, querem ver!», pensei de imediato, associando toda aquela soldadesca à bomba que explodira.
Por uma fracção de segundos, recordei-me daquelas notícias sobre voos secretos que passaram por Portugal, e fiquei sem ar ao imaginar-me acorrentado dentro daqueles aviões da CIA, dos tais com prisioneiros, que fizeram escala em Pedras Rubras e nos Açores a caminho de Guantánamo.
E comecei então a sentir aquela incómoda sensação que é o suor a escorrer-me pelas costas abaixo, em grossas bátegas, empapando-me a camisa. Previa-me já a partir cascalho nalguma qualquer pedreira daquela inóspita prisão americana e, o que era bem pior, a injectarem-me soros da verdade pelas artérias acima, a ligarem-me a detectores de mentiras, a puxarem-me pelos cabelos, a apagarem-me cigarros nos mamilos, a arrancarem-me as unhas dos pés, a electrocutarem-me até os tintins, sei lá, a ser interrogado horas a fio por impiedosos algozes que me espancavam desalmadamente, torturando-me até à inanição, para obterem de mim respostas que não sabia dar, sobre questões que nunca sonhara equacionar sequer.
«É seu, este saco?», perguntou-me a mulher-polícia, com cara de poucos amigos, fazendo-me acordar da estupefacção.
Reconheci, de imediato, o pequeno saco azul onde transportava o livro de Pirandelo, um outro de García Márquez e o meu moleskine, uma espécie de confessionário onde costumo despejar as minhas alegrias e dores, impressões e outros nadas que me vão dando vida às histórias. Pelos vistos, esquecera-me completamente do saco no banco junto à livraria.
Os militares, mudos, nervosos, fixavam-me com olhar reprovador. Ela, com o dedo em riste e num francês de que só entendi o essencial, pregava-me um monumental sermão que devia girar em torno da necessidade de não nos esquecermos de qualquer tipo de objectos nas áreas públicas dos aeroportos.
Esgotada a argumentação e perante o meu ar de humilhado pela vergonha, como que correspondendo a algum sinal imperceptível de código, viraram-me ostensivamente as costas e deixaram-me ali, de boca semiaberta, vergado pelo peso do arrependimento.
Instantes passados, reflectindo sobre o assunto, respirei aliviado: no fim de contas ainda não era desta que iria parar a Guantánamo.
A Ida a Fátima
December 29th, 2008
— Mas quem é que vai a Fátima? — perguntou o meu avô, que entretanto descera do quarto, para mais uma das suas habituais incursões pela cozinha à procura de torresmos que a minha mãe, sob a ameaça de ser deserdada, era obrigada a fazer todos os dias.
— Aí a sua querida filha é que falou nisso!… — respondeu o meu pai, apontando com o nariz, ao mesmo tempo que encolhia os ombros, um gesto que, se ainda dúvidas restassem, o desligava em definitivo daquela promessa sem pés nem cabeça que a minha mãe acabara de fazer e cuja justificação fazia assentar em pressupostos completamente infundados. O que era grave.
Mas eu explico para que se perceba:
A conselho do doutor Duarte, o nosso médico nos Arcos, o meu pai levou-me a Coimbra para que o doutor Piteira, um especialista de primeira água, tentasse determinar as causas da minha excitação permanente. Só que, quando nos preparávamos para entrar no consultório, soubemos que o doutor Piteira, coitado, se tinha apagado dois dias antes com uma cirrose no fígado.
Para que não perdêssemos a viagem, por indicação do senhor Fragoso, o porteiro do prédio do falecido, acabei por ser visto pela doutora Leonilde, uma sujeita descomunalmente gorda, a quem o meu pai, numa análise controversa é certo, mas de tal forma vanguardista que me deixou perfeitamente abananado, atribuía a sua obesidade aos gases provocados pela concentração excessiva de ácido clorídrico no estômago, gerado, por seu turno, pelas muitas leguminosas que, possivelmente por via das dietas, a senhora devia andar a ingerir.
Ora como a médica não me receitou porcaria nenhuma, limitando-se a recomendar que não me dessem café, chá ou chocolates, ou outras coisas do género que me pudessem excitar, a minha mãe, num daqueles raciocínios lineares mas indiscutivelmente perspicazes em que era perita, partiu do lógico princípio de que, se o meu pai e eu fizéramos tão longa como dispendiosa viagem a Coimbra e se não me tinham receitado nada, nem sequer aquela história horrorosa do óleo de fígado de bacalhau, era sinal evidente que a coisa era séria e o mal de morte, devendo eu estar mesmo prestes a entregar a alma ao Criador.
Só restaria, portanto, a uma mãe extremosa e devota convicta como ela — devota, pelo menos até ter cortado relações com o padre Antero, o chupista, como me lembro dela lhe ter chamado —, apegar-se com um santo para tentar reverter a situação. Deixem-me que pergunte agora: haveria por aquela altura, em que a televisão nem sequer tinha chegado, o transistor sido inventado, o consumo da manteiga democratizado, a guerra colonial começado, investimento mais seguro em matéria de milagres que a Nossa Senhora de Fátima?
— E vais como? — perguntou o meu avô, como que adivinhando o que estaria ainda para vir.
Um Caso Perdido
December 28th, 2008
— Nem que me arrastem pelos tornozelos! — exclamei eu para a minha mãe, furibundo, levantando-me da mesa de rompante, sem sequer me preocupar em pedir licença.
Depois daquela inenarrável viagem que eu fizera com o meu pai a Coimbra, em que acabei por ser analisado, dos pés à cabeça, pela anaconda da doutora Leonilde, dado que o especialista para quem o doutor Duarte me despachara por causa da assanhada efervescência que me vinha atormentando a moleirinha, o doutor Piteira, tinha entretanto morrido com uma cirrose no fígado, a minha mãe, coitada, quando o meu pai lhe disse que a médica não me tinha receitado nada e conhecendo-a como eu a conhecia, deve ter tido daqueles raciocínios radicais em que costumava ser fértil e cogitado coisas assim do género:
«Bom, se não lhe receitaram nada, é porque não há nada a fazer. E se não há nada a fazer, ai meu Deus, é porque é um caso perdido, e se é um caso perdido, ai minha rica Nossa Senhora, meu querido filho, é porque realmente não há mesmo nada a fazer, nem com papas de linhaça. Só um milagre. E para fazer um milagre, como toda a gente sabe, ninguém mais habilitado e com melhores referências que a Nossa Senhora de Fátima».
— É isso mesmo, vamos a Fátima! — exclamou ela de repente a meio do jantar, com uma entoação tão determinada que não deixava qualquer margem de manobra ao meu pai, impedindo-a certamente o decoro de acrescentar, como era vezeira em fazer, o seu «e não se fala mais nisso!».
Não sei porquê, não gostei nada da forma como dissera aquele seu «vamos». Fez-me suspeitar que eu estaria obrigatoriamente incluído.
— E vamos a pé! — acrescentou, sem nos ter deixado recuperar do abalo.
— E o miúdo? — perguntou o meu pai, descansado, pois sabia perfeitamente que se alguém tivesse de ficar, como era o caso, teria de ser ele.
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Um Caso Perdido
December 28th, 2008
— Nem que me arrastem pelos tornozelos! — exclamei eu para a minha mãe, furibundo, levantando-me da mesa de rompante, sem sequer me preocupar em pedir licença.
Depois daquela inenarrável viagem que eu fizera com o meu pai a Coimbra, em que acabei por ser analisado, dos pés à cabeça, pela anaconda da doutora Leonilde, dado que o especialista para quem o doutor Duarte me despachara por causa da assanhada efervescência que me vinha atormentando a moleirinha, o doutor Piteira, tinha entretanto morrido com uma cirrose no fígado, a minha mãe, coitada, quando o meu pai lhe disse que a médica não me tinha receitado nada e conhecendo-a como eu a conhecia, deve ter tido daqueles raciocínios radicais em que costumava ser fértil e cogitado coisas assim do género:
«Bom, se não lhe receitaram nada, é porque não há nada a fazer. E se não há nada a fazer, ai meu Deus, é porque é um caso perdido, e se é um caso perdido, ai minha rica Nossa Senhora, meu querido filho, é porque realmente não há mesmo nada a fazer, nem com papas de linhaça. Só um milagre. E para fazer um milagre, como toda a gente sabe, ninguém mais habilitado e com melhores referências que a Nossa Senhora de Fátima».
— É isso mesmo, vamos a Fátima! — exclamou ela de repente a meio do jantar, com uma entoação tão determinada que não deixava qualquer margem de manobra ao meu pai, impedindo-a certamente o decoro de acrescentar, como era vezeira em fazer, o seu «e não se fala mais nisso!».
Não sei porquê, não gostei nada da forma como dissera aquele seu «vamos». Fez-me suspeitar que eu estaria obrigatoriamente incluído.
— E vamos a pé! — acrescentou, sem nos ter deixado recuperar do abalo.
— E o miúdo? — perguntou o meu pai, descansado, pois sabia perfeitamente que se alguém tivesse de ficar, como era o caso, teria de ser ele.
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Gases
December 27th, 2008
Depois da inesperada notícia da morte do doutor Piteira, o especialista de Coimbra onde o doutor Duarte mandou o meu pai levar-me como derradeira hipótese para suprir as suas insuficiências e eventualmente os meus problemas de excitação exacerbada, restava-nos decidir se eu iria ser observado pela substituta do falecido — a canastrona que só não me mandou para os anjinhos com uma valentíssima lambada porque o meu pai lhe aparou a tempo o golpe —, ou, em alternativa, íamos de mãos a abanar para os Arcos.
Pela minha parte já me tinha decidido. E o meu raciocínio não podia ser mais linear: com o cabedal da sujeita e o meu feitio, um novo encontro entre os dois seria irremediavelmente fatal para a minha saúde.
Valendo-se dos seus melhores argumentos e depois de muito suar, o meu pai lá me conseguiu convencer a ir à consulta da tal doutora Leonilde. Naquele seu tom de voz que deixava sempre transparecer serenidade e placidez, com um toque até de alguma bonomia, foi-me dizendo que a médica, apesar daquela gordura toda e de parecer realmente uma anaconda — nessa altura deu-me um toque com o cotovelo no ombro e notei que se abriu num sorriso conivente —, não devia ser má senhora pois, coitada, o problema dela até poderia muito bem ser que fossem gases.
— Gases?! — estranhei eu, mostrando-me assim a modos que céptico. — Não acredito!
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A Consulta
December 26th, 2008Pintura de Fernando Botero

«Mas isto é um elevador, palerma!», exclamava, desesperado, o meu pai, desdobrando-se em explicações, enquanto eu, que me derretia em lágrimas, fazia uma cena de morte e me recusava terminantemente a entrar naquela gaiola de grades de correr, com a alegação, em meu entender irrefutável, de que o meu pai já não gostava mais de mim e de que tudo aquilo não passava de um plano maquiavélico urdido com a conivência da nossa vizinhança em peso, mais a da minha professora, a dona Eduartina, com o evidente propósito de se verem livres de mim e de me despacharem numa jaula, a grande velocidade, para o circo Mariano.
Percebo agora, aliás, porque é que o doutor Duarte, o homem que me tirou cá para fora a troco de sete notas e meia de conto, fazia tanta questão em que o meu pai me trouxesse ao especialista a Coimbra. Obviamente que estava tudo mancomunado.
— Vai subir? — perguntou uma senhora gorda acabada de chegar, virada para o meu pai.
— Eu gostava, mas primeiro queria ver se convencia aqui o meu filho a meter-se no elevador.
— E vamos ter que ficar à espera até que o catraio se decida?
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Percebo agora, aliás, porque é que o doutor Duarte, o homem que me tirou cá para fora a troco de sete notas e meia de conto, fazia tanta questão em que o meu pai me trouxesse ao especialista a Coimbra. Obviamente que estava tudo mancomunado.
— Vai subir? — perguntou uma senhora gorda acabada de chegar, virada para o meu pai.
— Eu gostava, mas primeiro queria ver se convencia aqui o meu filho a meter-se no elevador.
— E vamos ter que ficar à espera até que o catraio se decida?
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