Diálogos à solta
December 21st, 2008
— Então, como é que vai ser hoje?
— Curto e espetado!
— Curto e espetado, como?
— Curto é curto, não é verdade? E espetado é no ar. Assim erguido, do género do Harrison Ford, como se me tivessem pregado um susto, percebe?
— Perfeitamente, mas espetado é que não vai dar.
— Não vai dar, como? Então, ainda o cortei aqui há dois meses e ficou espetado, todo no ar como eu queria, e agora você diz-me que espetado não pode ser?
— Perdão! Eu disse que não ia dar, o que é ligeiramente diferente. Para além do mais, de há dois meses para cá, muita coisa mudou neste estabelecimento.
— Como por exemplo?
— Mudou a gerência, mudaram alguns empregados, os métodos de trabalho, mudou, como certamente já deve ter notado, o mobiliário, os preços…
— Sim! E depois?
— Saiu a dona Salete…
— A que fazia as unhas? A que dava aquelas massagens…
— Exactamente! Foi trabalhar para a concorrência.
— Você não me diga…E agora?
— Temos aí uma senhora nova a substituí-la, a dona Elsa, que dizem que é muito superior à dona Salete.
— Superior, como?
— Assim… está a ver? Com estas partes, aqui ó…, muito mais bem feitas, muito mais rijas e bem esculpidas. Um verdadeiro espanto… cortamos?
— Lógico!
— Curto?
— Claro, como já lhe tinha dito! Mas espetado, se faz favor!… E não está cá hoje, a dona Elsa?
— Agora não! Teve uma domiciliária.
— Domiciliária, como?
— Foi atender um cliente a casa.
— Ah! E também já fazem disso aqui?
— Nós, os do corte, não! Só na parte de unhas e massagens. É a política da nova gerência, do senhor Gerson, um brasileiro competentíssimo, sabe? Cheio de ideias novas!… Prefere com máquina ou à tesoura?
— O tradicional. À tesoura! E o que fazem nas domiciliárias?
— É o normal, penso eu!
— O normal, como? Explique-me lá, que é para eu ficar a saber.
— Já tinha feito massagens com a dona Salete?
— Algumas vezes, porquê?
— Então, é que com a dona Elsa é do mesmo tipo, só que pode ser em casa e, pelo que me dizem, muito mais refinado.
— Do tipo tailandês?
— Agora é que não sei. Mas se calhar é, vai ver!… a cobrir a orelha?
— Não, não! Cortado por cima. E são caras as domiciliárias?
— Noventa euros!
— Porra! Tanto?!
— Sim, mas pelo que me dizem, parece que vale mesmo a pena.
— Pois, mas por noventa euros eu até vou jantar ao Casino e tenho espectáculo incluído.
— Não digo que não. Mas com a dona Elsa, pelos vistos, o senhor até tem ópera, que é muito melhor. Prontinho, já está!… Mais leve!…
— Mais leve, como? E o espetado?!
— Ai isso é que não pode ser.
— Não pode ser como?
— São ordens da gerência. O espetado, só nas domiciliárias.
— Nas domiciliárias?!
— Claro! Depois de uma massagem com dona Elsa, há-de verificar como fica com os cabelos no ar, todo espetado, como o senhor gosta. E nem precisa de pôr gel, vai ver…
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Diálogos à solta
September 19th, 2007
— Bom dia, dona Lurdes!
— Bom dia, dona Conceição!
— Tem coentros, dona Lurdes?
— Acabaram-se-me, dona Conceição! Para aí há meia hora. Veio aqui o tunisino do restaurante e como hoje é quinta-feira, levou-mos todos para os couscous.
— Não sabia que os couscous levavam coentros!
— Ó dona Conceição, a senhora não me diga que não sabia que os couscous levam coentros? Que isso até a lambisgóia do 5º B sabe!
— A senhora, por acaso, não me está a comparar a essa serigaita, pois não dona Lurdes?
— Ó dona Conceição, é que nem sequer me passou tal coisa pela cabeça, sinceramente! E a senhora tem lá alguma comparação com alguém?
— Porquê?! Sou anormalzinha, por acaso, para não poder ser comparada com ninguém, dona Lurdes?
— Ó Florentino, ainda bem que chegas, filho! Faz-me um favor enquanto eu vou ao armazém: atende-me aqui a dona Conceição, que já não nos estamos a entender lá muito bem…
— Como está a senhora, dona Conceição?
— Eu estou bem, felizmente. Quem me parece que não está nada bem é a sua esposa, que quis dizer que eu era anormal.
— Como a lambisgóia do 5º B, dona Conceição?
— Ó senhor Florentino, pelo amor de Deus! Também só me faltava agora o senhor a comparar-me com aquela serigaita… Eu que só vim buscar um raminho de coentros…
— Ah, isso é que já não há! Foi o tunisino do restaurante que mos levou todos, para os couscous.
— Já soube! A dona Lurdes disse-me! E eu que até nem sabia que os couscous levavam coentros, veja lá o senhor!
— Ó dona Conceição, a senhora não me diga que não sabia que os couscous levam coentros? Que isso até a lambisgóia do 5º B sabe!
— E como é que o senhor sabe que a lambisgóia do 5º B sabe, ó senhor Florentino?
— Ó dona Conceição, toda a gente sabe que ela faz uns couscous de se lhe tirar o chapéu.
— Eu cá não sabia, por exemplo!
— Mas olhe que até o seu marido sabe, ó dona Conceição!
— E como é que o senhor sabe que o meu marido sabe, ó senhor Florentino?
— Ora como é que eu sei, como é que eu sei… porque o seu marido ainda na terça-feira passada vinha comprar um ramo de coentros e eu disse-lhe que a lambisgóia do 5º B tinha levado o último.
— E…
— E ele disse-me: «Então se á assim, já não preciso». E quando ia a sair a porta ainda acrescentou, um bocado mal disposto: «E mais consideração pelos vizinhos, senhor Florentino. Olhe que a senhora, apesar do falatório, é uma pessoa de respeito. Muito boa dona de casada e uma cozinheira prendada como poucas. Faz até uns couscous que o senhor nem imagina».
Diálogos à solta
September 13th, 2007
— Tem toalhetes?
— De cozinha?
— Não! Dos de limpar o nariz.
— Isso não são toalhetes, são lenços.
— Não, não! Há os lenços, sim senhor, que são aqueles todos dobradinhos, que vêm em pacotes pequeninos e depois há os toalhetes, que é o que eu quero, que vêm em caixinhas e se vai puxando um a um.
— Disso não tenho! Mas papel higiénico não dá?
— Não, que é muito áspero.
— É pena! Tenho agora aí em promoção um de folha dupla, uma maravilha. Nada áspero, por sinal.
— Pois, mas o que eu quero são toalhetes, daqueles de limpar o nariz…
— O senhor já me disse. Só não percebo porque é que teima nos toalhetes quando o papel higiénico servia perfeitamente.
— Isso é o que o senhor diz! Já experimentou, por acaso?
— O quê? Limpar o nariz com papel higiénico? Quase todos os dias!
— E já reparou como é que tem o nariz?
— Não! Como?!
— Todo vermelho, que até parece que lhe passou com lixa…
— Ah, mas isso é de outra coisa…
— Tinto?
— Não, branco! Anis!
— E gosta?
— É quanto venha! Mas porque é que pergunta?
— Eu não perguntei nada. O senhor é que me disse.
— O quê?
— Que gostava de anis. E até era por isso que tinha o nariz todo vermelho…
— Ai fui eu que lhe disse?!
— Pois foi!
— Se calhar fui. Mas é como lhe digo: toalhetes não tenho. Só se for papel higiénico, do tal de folha dupla, que está em promoção.
— Mas é muito áspero, que diabo.
— Impressão sua. Garanto-lhe que não é nada. E vá por mim, que até limpo o nariz a papel higiénico.
— E tem-no nesse mísero estado, todo vermelho.
— Mau! Voltamos ao mesmo?! Ainda agora acabei de lhe dizer que isso era do anis.
— Eu só não percebo porque é que não tem toalhetes. Uma coisa tão procurada, que até se põe agora nos carros, em cima dos tabliês…
— Pois é, mas não tenho! Só papel higiénico.
— Está bem, pronto. Dê-me dois rolos.
— Assim está muito melhor. E vai ver como o nariz não lhe fica vermelho.
— Mas não é para mim. É para a minha mulher, que essa é que anda sempre com ele todo vermelho.
— Não me diga que é o marido da dona Manuela?
— Sou, porquê?
— Porque tirando eu, a sua esposa é a pessoa que mais anis gasta cá na mercearia.
Diálogos à solta
August 30th, 2007
— Agência de viagens Gago Coutinho e Sacadura Cabral, muito bom dia. Fala Helena, em que posso ajudá-lo?
— La, menina! A-ju-dá-la, que muito embora pela voz não pareça, eu sou mulher!
— Peço desculpa! Em que posso ajudá-la?
— Eu queria saber se têm algum programa para Lindos?
— E isso fica aonde?
— Na Grécia, menina, na Grécia!
— Ora para a Grécia, para a Grécia… só um minuto, por favor, que eu estou aqui a tentar ver nos meus papeis… Ora cá está! Para a Grécia só temos programas para Atenas, Miknos, Rhodes, Santorini e Iraklion. Para Lindos não temos nada.
— E isso fica aonde?
— É tudo na Grécia!
— Não é isso menina! Iraklion, ou lá o que é, fica onde?
— Ah isso não sei exactamente, que eu só estou aqui há três dias, mas dê-me só um instantinho, que eu vou perguntar aqui à minha colega. Não desligue, por favor…
— Está bem, eu espero!
Minutos depois:
— É a capital da ilha de Creta.
— E tem praia?
— Pois! Estamos com o mesmo problema, sabe! É que eu da Grécia só sei que são só cacos, que está tudo em ruínas, e que tem uma feira da ladra mesmo por debaixo do Partenon, em Atenas, que foi uma prima minha que me disse. Mas é só um instante que eu vou perguntar à minha colega. Não desligue, se faz favor…
— Está bem, eu aguardo!
Minutos depois:
— Só tem porto de mar. Praia não! Mas diz a minha colega que é uma cidade muito bonita. Com umas ruínas do palácio do rei Minos, em Knossos, que são uma verdadeira maravilha.
— E o rei Minos vive lá?
— Ó minha senhora, isso nem sequer preciso de perguntar à minha colega! Então um rei ia lá agora viver numas ruínas? No mínimo dos mínimos deve viver nalgum condomínio fechado daqueles de luxo, com vista para o mar e no centro da cidade.
— Com os gregos nunca se sabe, menina. O melhor é perguntar à sua colega, que eu espero.
Minutos depois:
— A minha colega riu-se. Diz que o rei Minos já morreu.
— Tenha paciência, mas não acredito. Eu vejo todos os dias o Jornal Nacional da TVI, que é o melhor nestas coisas de mortes e desgraças, e não me lembro de ter lá visto nenhuma notícia sobre a morte do rei Minos. A sua colega deve estar equivocada. Pergunte-lhe lá se não estará a fazer confusão com o Xá da Pérsia, que é lá perto.
Pouco depois:
— A minha colega diz que quando o rei Minos morreu, a senhora ainda não era nascida.
— Como é que ela pode afirmar uma coisa dessas se nem sequer sabe a minha idade?
— Vai ver que foi nalgum bombardeamento durante a Primeira Guerra Mundial. Buuuuum!!! Foi palácio, foi rei e foi tudo…
— Só se foi isso! Realmente nessa altura ainda não havia TVI. Pois é, mas sem praia não! Preciso de apanhar muito sol, tomar uns banhos naquelas águas quentinhas do Pacífico…
— Mas a Grécia, tanto quanto eu sei, não fica no Pacífico…
— Tem a certeza? Ora pergunte lá à sua colega se não é a seguir ao México.
Pouco depois:
— A minha colega diz que é um tudo nada mais para leste…
— Ao lado de S. Tomé e Príncipe?
— Não, isso é Moçambique, que eu sei. A minha colega diz que é logo a seguir a Itália, no mar Mediterrâneo.
— Mas isso é à beira do Afeganistão, muito para lá de Timor Leste. Tenha paciência, isso não! Pensei que fosse mais perto.
— Mais perto e com praia, só se for a Suiça.
— Ai não! É calor demais para mim. E depois sabe, tenho medo dos animais selvagens. Além de que não gosto de África. Tenho um verdadeiro pavor a mosquitos.
— Então só se for o sul de Espanha. Sempre ouvi dizer que o mar lá é quentinho.
— A menina acha?
— Eu achar acho. Só tem um inconveniente…
— E qual é?
— É que é uma viagem muito extenuante, sabe? Só de Lisboa a Las Vegas são mais de catorze horas de vôo, com escala em Nova Iorque. E de Las Vegas a Benidorme não sei bem ao certo, mas só um minuto que eu vou perguntar aqui à minha colega. Não desligue não, se faz favor…
— Está bem menina, eu espero.
Diálogos à solta
August 17th, 2007
— Senhor Florentino, tenha paciência, mas hoje tenho de lhe apresentar uma reclamação!
— Faça o favor, senhor Godinho!
— Então o senhor, sabendo que na minha casa só se gastam bananas da Madeira, foi vender à minha mulher aquela coisa horrorosa das «Bonitas» da Costa Rica?
— Mas não gosta, é?
— De quê? Das bananas da Costa Rica? Claro que não! Então o senhor não sabe que aquilo é amadurecido à força, com os cachos dentro de sacos plásticos azuis, que são os principais causadores da morte de centenas de tartarugas marinhas?
— Não sabia que as tartarugas gostavam de bananas.
— Não é de bananas senhor Florentino! É de sacos plásticos!
— Não me diga que as desgraçadas comem os sacos plásticos, senhor Godinho?
— É o que eu lhe digo. São atraídas pela cor azul, engolem-nos e morrem às centenas, asfixiadas.
— E é por isso que prefere as bananas da Madeira, o senhor?
— Não! Não é por isso! É que as da Madeira são mais saborosas!
— Quer-se dizer então que o senhor Godinho não se importa que as tartarugas morram por causa dos sacos azuis? O que lhe interessa mesmo são as bananas do Alberto João.
— Quero lá saber desse caramelo para alguma coisa, senhor Florentino! Claro que me importo com as coitadas! E não me esteja a tentar dar a volta nem se desvie da conversa, se faz favor!
— Eu não estou a tentar dar a volta a ninguém, senhor Godinho! O senhor é que falou nas tartarugas da Nicarágua, ou lá o que é…
— Não são da Nicarágua! São da Costa Rica!
— Mas na Nicarágua também não há bananas?
— Deve haver!
— E não são amadurecidas à força, em sacos azuis?
— Devem ser!
— E não há tartarugas nas costas da Nicarágua?
— Se calhar há! A Nicarágua é próxima da Costa Rica, portanto deve haver!
— E não foi lá que houve há uns anos uma revolução, chefiada por um tal Daniel Ortega, ou lá como se chamava o sujeito?
— E que é que isso tem a ver com as bananas da Madeira, senhor Florentino?
— A revolução nada! Mas tem as tartarugas!
— Mas na Madeira não há tartarugas! Só há bananas!
— Só há bananas, não! Que isso até eu sei, e nunca lá fui!
— Nunca lá foi porque não quis! Que as viagens agora até que estão baratas…
— Ai não me fale em baratas, senhor Godinho, que até me arrepio todo! Tenho um horror a esses bichos, que o senhor nem imagina. Olhe-me só para aqui e veja como é que eu fiquei com os pelos dos braços, só de ouvir falar em baratas…
— Acessíveis, senhor Florentino, acessíveis!
— Como?
— Estava eu a dizer que as viagens para a Madeira agora até estão a um preço acessível.
— Pois olhe que para mim, tanto se me dá, como se me deu. Nunca fiz tensões de ir à Madeira!…
— Não me diga que é por causa do Alberto João?
— E eu quero lá saber desse caramelo para alguma coisa, senhor Godinho!
— Então se calhar é por causa disso que a Madeira tem os problemas que tem.
— Não estou a perceber…
— Por ninguém querer saber do coitado para nada.
— Qual coitado, senhor Godinho?
— O Alberto João.
— E ele é coitado? Meretriz sei que é, pois foi ele próprio que se lhes comparou, na televisão. Agora coitado, é a primeira vez que ouço.
— Mas então afinal em que é que ficamos, senhor Florentino?
— Ficamos o quê, senhor Godinho?
— Da minha reclamação sobre as bananas…
— Ah, disso!… Tem toda a razão, sim senhor! Realmente as da Madeira são muito mais saborosas.
— Isso eu sei, senhor Florentino. Mas aquilo que eu quero que me diga é se me aceita de volta os três quilos de bananas da Costa Rica que vendeu ontem à minha mulher.
— Ai isso, nem pensar, senhor Godinho!
— Mas porquê?
— Então eu ia-lhe lá aceitar umas bananas que são responsáveis pela morte de centenas de tartarugas! É que nem pense nisso!
— Mas o senhor nem sequer sabia, que fui eu que lhe disse!
— E estou-lhe muito grato por isso. Aprender, aprender sempre!, como dizia um gajo qualquer comunista de Leste. A minha mercearia, senhor Godinho, é conceituada e conhecida por só vender produtos naturais e ecológicos. Reciclados de preferência. Veja o caso da palha d’aço, por exemplo…
— O que é que tem a palha d’aço?
— É um produto cem por cento reciclado.
— Está bem, e as bananas?
— As bananas, que eu saiba, não!
— Ó senhor Florentino, deixe-se de tretas, que diabo! Eu só quero saber como é que vou ser compensado por um erro que não cometi?
— Mas isso resolve-se já, senhor Godinho! Dou-lhe outros três quilos de bananas e pronto… Ora aqui estão elas, mais uma de contrapeso! E são as últimas!
— Mas isto são bananas da Costa Rica!
— E queria que fossem donde? Da Madeira?
— Claro!
— Isso é que era bom! Para o senhor andar a espalhar aí pela vizinhança que eu tenho à venda produtos que colaboram com o extermínio de pobres tartarugas indefesas, não ? E a reputação do meu estabelecimento? Não conta?
Diálogos à solta
July 30th, 2007
Vila Moura, sábado de calor. Praia apinhada. Onze e trinta da manhã. Ela, debaixo do guarda-sol, põe creme protector. Ele, bronzeado, musculoso, aproxima-se decidido.
— Sozinha?
— Não! Acompanhada! Com o meu marido!
— Onde?!… Não o vejo!
— Foi ao carro buscar os óculos de sol.
— É pena!
— O quê? O meu marido ter ido ao carro, ou eu não estar só?
— Não estar só!
— Mas porquê?
— Experimente imaginar.
— Não consigo!
— Imaginar-se sozinha?!
— Não é isso! Imaginar o que é que aconteceria se estivesse sozinha…
— Fácil! Conversávamos, por exemplo.
— Não é o que estamos a fazer?
— Mas era diferente.
— Diferente como?
— Se estivesse sozinha, poderíamos conversar sobre outras coisas.
— Sobre o tempo?
— Claro que não!
— Então?
— Sobre nós os dois, por exemplo!
— Mas nem sequer o conheço!
— Não estaria já na altura?
— De quê?
— De me conhecer!
— E não seria ir depressa demais?
— Amanhã é capaz de ser tarde…
— Então porquê?
— Caso-me amanhã!
— Pois é, mas hoje também é cedo, muito cedo!
— Revanchismo?
— Não! Nada disso! Casei-me ontem!
Diálogos à solta
July 17th, 2007Caricatura de Court Jones

— Vinha buscar uns óculos que deixei aqui há dois dias para arranjar.
— E em que nome é que ficaram?
— São do meu marido.
— Sim, mas qual é o nome?
— O meu? Marília Alves Carneiro.
— Não, minha senhora! O nome do seu marido!
— E para que é que a senhora quer saber o nome do meu marido?
— Para poder entregar os óculos à senhora.
— Ora essa! Então agora uma pessoa para poder levantar uns óculos tem de dizer o nome do marido? E se for divorciada? Ou mesmo viúva?…
— Não é isso, minha senhora…
— …Sim, porque eu, que já sou casada há vinte e nove anos, e sempre fiz questão disso, casei-me com separação de bens, só para que não dissessem que lá por o meu marido ser engenheiro da construção civil, estava a dar o golpe do baú, como se diz agora nas telenovelas brasileiras e nas da TVI, que a RTP anda uma autêntica porcaria, só com debates, só com debates. O meu mais velho, o Jorge Humberto, que está agora a tirar o mestrado em psicologia clínica até comentou isso com a mais nova, a Alcina Maria, antes dela se ir embora para as Canárias fazer o trabalho de fim de curso em antropologia, que ela até queria, tadinha, ir para São Tomé e Príncipe, mas eu desaconselhei-a e até lhe disse-lhe: Ai filha, olha as picadelas dos mosquitos, olha a febre hemorrágica, o dengue, a malária, as bexigas doidas, olha os pretos de lá que são tão escuros, e ela lá se convenceu e foi para as Canárias que sempre é mais perto, apesar de serem todos espanhóis, o que também é um grande aborrecimento como deve imaginar…
— Minha senhora, como certamente já reparou, está aqui uma imensidão de pessoas à espera de ser atendida. Recapitulemos para ver se nos despachamos: A senhora entregou cá um par de óculos para consertar, certo?
— É isso mesmo!
— E deixou-os ficar em nome de…
— Do meu marido!
— Ainda bem que a senhora se lembra. E o seu marido chama-se?…
— Mau, a senhora insiste! Para que é que quer saber o nome do meu marido? Só se for para lhe telefonar! Tenho visto tanta coisa, que até já nem estranho nada. Sim, porque ele, apesar de ter já cinquenta e dois anos e não parecer, é uma estampa que nem lhe digo…
— Eu imagino…
— Olhe, então para nos despacharmos, que eu também estou com pressa, são uns óculos de ver ao perto, com aros fininhos de metal preto, como usa agora aquele actor americano… ai como é que ele se chama?… Que fazia de médico das urgências naquela série americana e até dá uns ares com o António Banderas, que eu até no outro dia, quando estávamos a ver televisão, comentei com o meu marido, na brincadeira: Ai Manuel José, se não fosse casada contigo e se o Banderas não fosse espanhol, até era bem capaz de fazer uma asneira…
— Não precisa de dizer mais nada, minha senhora, não se canse. Manuel José, não é verdade?… Ora aqui estão eles, os óculos do seu marido!
— Está a ver, como eu até tinha razão!… Como vê, não precisou de saber o nome dele para me entregar os óculos. Se não fossem as burocracias, este país até que andava para a frente. Se as pessoas se deixassem de palavreado e trabalhassem, mas não, ainda anteontem, estava eu a conversar com a minha vizinha do terceiro esquerdo, a dona Francelina, a falarmos da vida, não é verdade… … …
Diálogos à solta
June 29th, 2007
— Dona Ermelinda estão aqui estas pastas para levar ao doutor João Alberto do quinto andar.
— Quem? Aquele magricela com o cabelo cheio de brilhantina?
— Não, dona Ermelinda! Esse é o doutor Carlos Manuel da Tesouraria. O doutor João Alberto é aquele que a namorada tem o piercing no lábio e que veio cá outro dia fazer um chinfrim danado por ele ter ido para a discoteca com outra fulana, uma tal Carla, que anda com o doutor Emanuel, do oitavo.
— Quem? O de bigode à monárquico?
— O do bigode à monárquico é o doutor Francisco Maria, dona Ermelinda. Mas a quem a senhora tem de levar as pastas é ao doutor João Alberto, está a perceber?
— Isso já eu sei, senhor Gonçalves! Mas o doutor João Alberto, não é aquele rapaz novo, que entrou há mês e meio e até era assessor do presidente da Câmara de Almeirim que ficou desempregado a seguir às eleições autárquicas?
— Não, dona Ermelinda! Esse é o doutor Gonçalo!
— Tem razão! Agora já estou a ver! É aquele que anda sempre de casaco de camurça e tem um Mercedes cinzento descapotável, muito bonito, por sinal…
— Também não, dona Ermelinda! Esse é o larilas, o doutor Romeu! Trabalha ao lado do doutor João Alberto, mas é o larilas, não é ele.
— Mas o larilas não é o doutor Januário? Aquele que é casado com a dona Carlota, que tem voz de homem, coitada, e pai de três filhos?
— Também é, dona Ermelinda. Mas esse pertence ao Conselho de Administração.
— Mas truca-truca, senhor Gonçalves?!… Veja lá, um homem tão distinto!…
— É verdade!… E até dizem que anda metido com o doutor Cardoso, o director da Informática.
— Mas esse não é o que anda com o doutor Zé Gomes, o dos Recursos Humanos?
— Não dona Ermelinda! Esse consta-se que morre de ciúmes pelo doutor Romeu viver atracado ao doutor Feliciano, da Contabilidade.
— Ó porra! Ó senhor Gonçalves, eu já não percebo nada disto! Só sei que ninguém se entende nesta casa! Isto é um prédio de doze andaras, somos mais de duzentos e cinquenta funcionários; só praticamente eu, que trabalho na limpeza, e o senhor que é porteiro, é que não somos doutores. E ainda bem, livra!… Até a telefonista, a Belmirinha, aos quarenta e sete anos, se formou agora em histórico-filosóficas! Como é que, com tantos doutores, o senhor Gonçalves quer que eu saiba quem é o doutor João Alberto? Sinceramente!…
— Ó dona Ermelinda, é aquele que entra às onze e sai às duas da tarde!…
— E porque é que você não me disse logo que era o filho do patrão, senhor Gonçalves? Andamos a perder tempo, valha-nos Deus! E a empresa não nos paga para isso, não acha?
Diálogos à solta
June 22nd, 2007
— Por favor, minha senhora, queria comprar um ramo de flores.
— Alguma ocasião especial?
— Anos! Anos de minha mulher!
— Tem preferências?
— Vistoso! Assim uma coisa colorida!
— Rosas vermelhas?
— Não estará já muito visto?
— Talvez… E rosa porcelana?
— Para isso ia a uma loja da Vista Alegre, não acha?
— Peço desculpa mas não me fiz entender!… Rosa porcelana é uma flor lindíssima, originária de São Tomé e Príncipe, que parece que é mesmo de porcelana…
— Desculpe-me, mas confesso-lhe a minha ignorância em matéria de flores. Posso ver?
— Claro! Tem ali aquelas, em tons vermelho e laranja…
— Nunca fui muito dado ao laranja, sabe. Vou mais nos vermelhos.
— É exactamente como eu, o senhor. O sangue a pulsar, o fogo a arder, a chama em permanente crepitar… enfim…
— Essas suas palavras fizeram-me lembrar a minha adolescência, em que sentia toda essa exaltação, de forma tão compulsivamente arrebatadora.
— Não me diga que já não é assim? Tão novo ainda…
— Não tanto quanto isso! Vou fazer quarenta e três…
— Em Setembro?
— Não, não! Em Outubro.
— E eu faço quarenta e um. A quatro.
— De Outubro?
— Não, agora em Setembro.
— Mas isso é já para a semana… E ninguém diria que a senhora…
— Camélia… sou Camélia.
— Até que era uma belíssima ideia…
— O quê, desculpe?…
— Levar camélias.
— Que pena, não temos, sabe! É raro aparecerem.
— Não faz mal, levo só uma.
— Não estou a perceber…
— Levo só uma!
— Uma, como?
— A si! Levo-a a si!… Ou nega-me esse prazer?
— Não será irmos depressa de mais. Do género precipitado?…
— Precipitado, como?
— Sei lá, tudo tão rápido… assim, tão de repente…
— As melhores coisas desta vida são assim, vapt… de repente!
— É capaz de ter razão, sim senhor… mas então só se for às sete, que é quando eu saio.
— Óptimo. Às sete, então!
— E as flores para a sua mulher?
— Quais flores? Qual mulher?
— A sua! Os anos, lembra-se?
— Ah claro!… Mas isso qualquer torradeira eléctrica serve. Tanto mais, que ela já me anda a pedir uma há mais de seis meses.























