Os Bárbaros – Um teste à memória
August 6th, 2010
Perguntaram-me há três dias se sabia onde estava no dia 8 de Janeiro de 1966.
A questão posta assim, sem prévio aviso ou qualquer rodeio que a fizesse anunciar, tanto poderia ser entendida como uma chocante perversidade face à desfaçatez do desafio, como – e acabaria por ser isso mesmo – uma doce consolação pelas gratas recordações que a resposta fazia agora emergir dos mais esconsos cantos do meu esquecimento.
Nesse dia de há já quarenta e quatro anos, o Hernâni Araújo na viola ritmo e nas teclas, o Artur Pinto na bateria, o Vladimiro Castilho na viola baixo, e eu próprio na viola solo, corporizando um projecto que nascera havia pouco mais de um ano e que se dava pelo nome de “os Bárbaros”, actuávamos pela segunda vez no Teatro Monumental, em Lisboa (onde foi tirada esta fotografia), num muito saudado evento intitulado Concurso Yé-Yé.
Servindo como um dos canais de angariação de fundos do Movimento Nacional Feminino, que o promovia, este concurso pôs em confronto, durante várias semanas e em várias eliminatórias, grupos rock de todo o país.
Para quem não sabe, o Movimento Nacional Feminino, do qual só durante a guerra colonial me vim a aperceber da verdadeira extensão dos objectivos que perseguia, era uma organização em perfeita sintonia com o Estado Novo e os seus dirigentes, funcionando como muleta da ditadura de Oliveira Salazar.
Criado por 25 mulheres todas elas ligadas às elites do sistema em 28 de Abril de 1961 (pouco depois da eclosão do conflito em Angola e por circunstância fortuita ou premeditadamente no dia de anos de Salazar), o MNF era uma associação em cuja actividade predominava o apoio moral aos soldados que participavam na guerra colonial.
No fundo, e esta é a minha opinião, compartilhada de resto por muito boa gente, nada mais era que um instrumento da imensa máquina de acção psicológica do regime, destinada a incutir nos militares em combate noções tão cientificamente inexactas como raça, historicamente tão desajustadas como império, ou, naquele contexto, moralmente tão ignóbeis como sentido do dever e imperativo patriótico.
Foi presidido, desde o começo até à sua extinção pela Junta de Salvação Nacional em 1974, por Cecíclia Supico Pinto, casada com Clotário Luís Supico Ribeiro Pinto, ministro das finanças de 44 a 47 e homem destacado da União Nacional.
A “Cilinha”, como era conhecida e tratada nos meandros militares, terreno por onde se movia como perca no rio Nilo, foi a figura de proa, ou a testa de ferro se se quiser, escolhida por quem urdiu a estratégia, por estar muito próxima do poder – era amiga e confidente de Salazar -, pelo seu verbo fácil, pelo seu voluntarismo, pelo seu incontornável gosto por viajar e por ter uma dose quanto bastasse de sede de aventura. O suficiente, pois, para concitar simpatias, para atrair sobre si todas as atenções, tal como hoje acontece com as actrizes de novelas.
Voltemos agora a “os Bárbaros”: tendo participado no concurso Yé-Yé por duas vezes – haveria de chegar às meias-finais do tal 8 de Janeiro de 66, nas quais se defrontaram com grupos fortes do rock português, como “os Sheiks”, onde pontificavam Paulo de Carvalho, Carlos Mendes e Fernando Tordo, “os Chinchilas”, “os Demónios Negros”, “os Diamantes Negros”, “os Tártaros” e “os Sombras” -, viria a registar, aos longo dos cinco anos da sua fugaz existência, várias alterações na sua composição.
Ainda anteriormente à primeira ida a Lisboa do grupo, Mário Rebola fora substituído por Vladimiro Castilho no baixo; depois disso, Artur Pinto deu lugar a Chico Correia na bateria e este, poucos meses depois, a Tó Veloso. Hernâni Araújo viria a ser o elemento seguinte a abandonar o conjunto para dar lugar a Victor Castilho. Esta troca provocou a primeira mudança estrutural no grupo: eliminava-se uma guitarra rítmica para se introduzir um instrumento de teclas, o órgão, correspondendo de certo modo a uma tendência que se vinha a acentuar na maior parte das bandas a nível internacional. Em Outubro de 69 seria a minha vez de deixar o conjunto, em viagem directa e compulsória para as fileiras do exército.
Seria injusto, entretanto, não registar a passagem pelo grupo de Nurmi Rocha como vocalista convidado. Ele permitiu, para além de nos privilegiar com o seu enorme talento de entertainer, trazer para o nosso lado uma camada de público que ainda não estava bem na nossa onda. Outros tempos.
“Os Bárbaros”, como tal, ainda viriam a durar mais uma ano após o meu abandono.
Têm sido algumas as vozes que se me têm manifestado para que o conjunto e todos aqueles que circulavam nos seus bastidores – e eram muitos e abnegados aqueles que o faziam – se reunissem de novo num convívio a que eu, sem qualquer menosprezo pela iniciativa, poderia chamar de revivalista, para que se revissem amigos de algumas décadas e se refrescassem memórias.
Tenho-me escusado a pensar nisso, por rejeitar liminarmente a saudade. Seria mexer com recordações dolorosas como a perda prematura de amigos muito queridos que, passados estes anos todos, ainda não consegui ultrapassar.
Créditos: Hernâni Araújo (foto)
Dia da Independência
August 5th, 2010
São conhecidos, no Ocidente, os constrangimentos colocados às mulheres no Afganistão em muitas áreas da sua vida, com particular relevância para os aspectos que se ligam com a educação.
A atenção que os meios de comunicação internacionais dão à guerra que lá se desenrola e àquilo que a circunscreve – e estão cada vez mais perdidos na nossa memória os abstrusos motivos com que os americanos a justificaram -, não nos permitem perceber que há muitas ilhas de paz neste flagelado país, onde as mulheres livremente se integram nas mais diversas actividades sociais.
É o caso do Daikundi, provavelmente a mais pobre, mais remota e mais deprimida das trinta e quatro províncias do Afeganistão, onde, comparativamente, as mulheres gozam de um ambiente livre e aberto, não existindo qualquer restrição para irem à escola ou que obste a que desenvolvam e participem noutras actividades educativas.
Na fotografia, uma bela imagem de Muzafar Ali, na qual se testemunha uma marcha de raparigas estudantes, precisamente na província de Daikundi, que comemora o dia da independência do Afganistão, desligado do Império Britânico desde 19 de Agosto de 1919.
Educação Sexual
July 27th, 2010Valores e princípios há que para serem mantidos ou alcançados, manda a nossa consciência que nos lancemos, seja esse o caso, na mais encarniçada luta ou que mantenhamos o nosso mais profundo empenho para que os atinjamos ou consolidemos.
Agora, confundir valores universais com interesse pessoal ou corporativo, direitos com intransigência, isso, em meu entender, tem mais a ver com falta de inteligência.
E é exactamente dessa ausência que este cartoon nos fala. De uma maneira deliciosa, mas ao mesmo tempo também dramática. Foi publicado no número de 17 de Abril da revista Time.

Lyle Lovett
July 24th, 2010
Há quase uma década que lhe ando no encalço. Não sei se foi uma canção do Al Green (Funny How Time Slips Away), que entusiasticamente recomendo, que me levou a bater-lhe à porta, o que é certo é que desde então, e sempre que posso, tenho pesquisado tudo sobre a sua carreira, como aliás de todos aqueles que, de forma mais directa, com ele têm colaborado ao longo de mais de três décadas. Refiro-me em particular ao pianista Matt Rollings e à cantora Francine Reed com a qual Lyle Lovett tem construído, para nosso delícia, duetos soberbos e inesquecíveis, ou, talvez de maneira mais arrebatadora ainda, como sua voz de suporte.
O site oficial de Lovett e o próprio YouTube são mananciais quase intermináveis das obras deste tão peculiar quanto talentoso cantor e compositor norte-americano, infelizmente quase desconhecido nos circuitos musicais portugueses.
O meu contributo para que isso possa ser minimamente colmatado aqui fica.
Um conselho a fechar: Não percam as canções do Al Green e de Francine Reed, bem como, evidentemente, a do próprio Lyle Lovett já em baixo.
Lyle Lovett – Biografia
Lyle Lovett foi um dos cantores e compositores norte-americanos mais carismáticos e originais a surgir na década de 80. Embora inicialmente rotulado como um cantor de música country, a etiqueta nunca se encaixou perfeitamente nele. Lovett tinha muito mais em comum com cantores dos anos 70 como por exemplo Guy Clark, Jesse Winchester, Randy Newman, Townes Van Zandt, conseguindo combinar, envolto num inusitado talento, mordacidade lírica com ecletismo musical, variando do country e folk ao swing big-band e pop tradicional.
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Adeus Lutécia
July 23rd, 2010
Que andam por aí em cima das nossas cabeças parece-me que já ninguém questiona. Que possam, contudo, cair em cima delas reduzindo-nos a esterco, é uma possibilidade à qual nem todos os crentes dão fé.
Mas que pode acontecer, lá isso pode, e se os astrofísicos não falam com mais insistência nessa quase inevitabilidade é porque, como pessoas sensatas que são, têm consciência da impotência humana perante uma eventualidade dessa magnitude e, o que seria bem mais incontrolável, o clima de pánico que a insistência em notícias desse género certamente não deixaria de gerar. Tal como aconteceu, aliás, em 1910, quando o cometa Halley passou próximo da Terra.
Tudo isto vem a propósito de uma belíssima imagem que me chegou numa newsletter que recebi hoje da NASA e cujo texto, da responsabilidade dessa agência espacial, apresento em baixo.
A caminho do seu encontro com o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, programado para 2014, a nave da Agência Espacial Europeia Roseta, com instrumentos da NASA a bordo, passou pelo asteróide Lutécia, no sábado, 10 de Julho.
Os instrumentos a bordo da Roseta registaram a primeira imagem próxima – que se apresenta acima – de um dos maiores asteróides até agora abordados por uma nave espacial. Foram feitas medições para obter a massa do abjecto, compreender as propriedades da crosta da superfície do asteróide, o registo do vento solar na vizinhança, bem como procurar evidências de atmosfera na sua superfície.
A nave espacial passou pelo asteróide a uma distância mínima de 3.160 quilómetros, à velocidade de 15 km por segundo, completando uma volta completa em apenas um minuto. Pouco depois da maior aproximação, Roseta iniciou a transmissão de dados para a Terra a fim de serem processadas.
O asteróide Lutécia constituiu um mistério durante muitos anos. Telescópios do sistema de observação terrestre mostraram que apresenta características desconcertantes. Se nalguns aspectos se assemelha a um organismo primitivo, do chamado Tipo-C, daqueles que sobraram da formação do sistema solar, noutros parece assemelhar-se àqueles que são constituídos por ferro, do Tipo-M, de cor avermelhada a associados a fragmentos de corpos celestes de muito maior dimensão.
O da Boa Memória
June 30th, 2010
João Vaz de Carvalho é um artista plástico que muito aprecio.
E não pensem que, por vir hoje aqui falar dele, estarei a tentar passar ao largo da derrota de ontem de Portugal contra a Espanha no Mundial de Futebol ou, muito menos, a tergiversar sobre aquilo que os mais maldosos possam pensar tratar-se de uma ignóbil retaliação do governo português contra os nossos vizinhos – tipo parada e resposta -, ao utilizar, por volta do meio-dia de hoje, a “golden share” que tem na PT para estragar o negócio aos nuestros hermanos da Telefónica na Vivo do Brasil.
Não. Se não falo nisso é porque João Vaz de Carvalho e as suas criações me cativam mais a atenção neste momento.
De estilo muito particular e peculiar, facto que torna a sua obra imediatamente identificável, Vaz de Carvalho poderia e pode ser classificado como pintor de talento. Correndo o risco de parecer injusto, mas não sendo, eu prefiro, contudo, inclui-lo no muito exclusivo universo dos ilustradores. Quero acreditar ser nas águas da ilustração que JVC prefere navegar, dando livre curso ao seu – perdoe-se-me o hipotético exagero – delirante imaginário onde, não apenas os temas que aborda, mas também a palete das cores que lhe povoaram decerto a infância, irrompem, desarvoradas, a vestir os personagens que como que enxameiam os suportes que utiliza para expressar a sua criatividade.
Artista premiado, o seu trabalho é perpassado, de fio-a-pavio, por um humor irreverente, fruto de uma inocência a raiar o fingidio. Destaco, para além de muita da sua obra que pode ser vista no seu site, este D. João I, publicado em 11 de Abril no suplemento infantil “Terra do Nunca” que acompanha a revista Notícias Magazine (Diário de Notícias/Jornal de Notícias), e que não tenho dúvidas em classificar como paradigma do seu estilo inconfundível.
Da sua página pessoal, deixo também aqui aquilo que João Vaz de Carvalho escreveu sobre si próprio em 2005 e que poderá ajudar um pouco a perceber a sua obre e o seu estilo.
Nasci no Fundão em 1958. A casa do meu avô era enorme e no quintal, cheio de cerejeiras, fartei-me de brincar com os meus irmãos. Havia os bichos simpáticos – cães, gatos, coelhos, galinhas e pintaínhos, e pardais que tinham o dom de adocicar as ginjas – e havia os antipáticos – aranhas gordas, lagartas peludas, minhocas enormes, escaravelhos da batata, bonitos, às riscas, que faziam mal às ditas. Nos Invernos era a neve, causadora de insónias, pois tinha o mau costume de cair à noite e o som da neve a cair não se pode imaginar, tem que se escutar. Lembro-me dos pêssegos e das paisagens que a minha mãe ainda hoje pinta. Lembro-me da paixão pela música do meu pai. E da do meu avô que tinha a forma de uma banda. Encostado ao balcão da loja de solas e cabedais de que recordo ainda hoje aquele cheiro característico, copiava músicas dias a fio, com esferográficas BIC, azuis e vermelhas, para bandas inteiras. Já tarde percebi de que forma perdurável todas essas e outras emoções me tinham marcado. Vivendo admirado, dei comigo chegado ao destino improvável de me tornar eu próprio um cultivador adulto desses prazeres. Entre eles, o humor, um prazer extraordinário.
Tenho um amigo que diz que o humor salva e que eu, tendo-o feito descer às profundezas de mim mesmo, já estarei salvo. Veremos. A verdade é que, como sou incapaz de olhar esses prazeres com nostalgia, tomei a decisão de vivê-los todos os dias, regando-os diariamente e tentando divertir-me o mais possível. Percebi que, com trabalho, os desenhos dos lápis e as cores das tintas, conseguem propagar essas aventuras saborosas, sejam elas passadas ou de agora. Ao fim e ao cabo, e sem me dar conta disso, acabei por coleccionar as peças de uma espécie de Meccano de vivências, com as quais julgo que estou finalmente pronto para construir o que quiser.
E sinto-me capaz de erguer um mundo com sentido. Lá, além de mim, existem três habitantes permanentes, uma mãe e duas filhas, rodeadas por um universo de sensações que as está a marcar para sempre como aconteceu comigo. São incondicionais desde o primeiro dia e só elas tornam este universo inteiro.
Black Gold
June 26th, 2010
A Gulbenkian tem a decorrer, desde o Verão do ano passado e a prolongar-se até ao final de 2011, o programa Próximo Futuro, que abarca a investigação e a criação culturais que se desenvolvem não apenas na Europa, como também na América Latina, Caraíbas e em África.
Programa multidisciplinar, abrangendo diversas áreas – e consulte-se o site aqui para que se possa ter uma muito mais vasta informação – das quais destacaria o cinema e a próxima apresentação, já no dia 7 de Julho, do filme Black Gold, um documentário que retrata a realidade da comercialização do café e dos astronómicos lucros que arrasta, que, tal como facilmente se depreenderá, não beneficiam quem o produz mas sim quem age como intermediário neste negócio de dimensões inimagináveis.
Título: Black Gold
Realização: Marc Francis e Nick Francis (Reino Unido)
2006, cor, 78’
As multinacionais do café dominam os nossos centros comerciais e supermercados e comandam uma indústria avaliada em mais de 80 mil milhões de dólares, fazendo deste produto a mercadoria comercial mais valiosa do mundo a seguir ao petróleo.
Nós, consumidores, pagamos bem os nossos galões e cappuccinos, mas, os cultivadores de café, continuam a receber tão pouco deste valor que muitos se vêem forçados a abandonar os seus campos. É na Etiópia, berço da cultura do café, que o paradoxo se torna mais evidente.
Tadesse Meskela tem como missão salvar da bancarrota 74 mil cultivadores em luta. Enquanto estes homens se esforçam por colher café da mais elevada qualidade do mercado internacional, Tadesse percorre o mundo à procura de compradores dispostos a pagar-lhes um preço justo. No contexto da passagem de Tadesse por Londres e Seattle, percebe-se o enorme poder dos negociantes multinacionais que dominam o negocio mundial do café.
Os commodity traders de Nova Iorque, o comércio internacional de café e as negociatas dos líderes do comércio, na Organização Mundial do Comércio, representam bem os vários desafios que Tadesse enfrenta, na demanda por uma solução duradoura para os seus agricultores.
(Texto retirado do programa)
Saramago
June 18th, 2010
Hoje Saramago foi.
Dele apenas me apetece repetir agora aquilo que disse sobre blogues: “O meu blog não tem ideias em particular. Os sismógrafos não escolhem os terremotos, reagem com os que vão ocorrendo. O blog é isso: um sismógrafo”, e o texto que leu no encerramento do II Fórum Social Mundial, realizado em 2002, em Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. Intitulado Da Justiça à Democracia, passando pelos sinos, reza assim:
Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.
Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tomaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”
Chimamanda Adichie:
O perigo de uma história única
June 17th, 2010 Isto é uma palestra sobre uma certa forma de intolerância e o inconformismo de quem acorda. E, para além de tudo o mais, constitui-se como um belo exemplo de uma tentativa bem sucedida de superar problemas que são quase tão velhos como a natureza humana.
Vale a pena ver e meditar sobre o que é dito pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, sobre o que se argumenta, sobre a razão da própria racionalidade. São dezoito minutos e quarenta e nove segundos de uma apaixonante comunicação. E tão simples que ela é.
Está legendado em português, bastando que para isso se seleccione o nosso idioma em View Subtitles.
Promoções
June 16th, 2010
O «Boteco Olé», na rua Conde de Irajá, no Rio de Janeiro, tenta cativar clientes anunciando promoções que giram, regra geral e com alguma lógica, em torno do comer, do beber e do futebol. Provavelmente por esta mesmíssima ordem.
Passaram já as fronteiras do Brasil as suas apelativas e irrecusáveis ofertas que têm por matriz orientadora este Mundial de Futebol e como razão primeira os desafios em que a selecção brasileira participa. Atente-se neste primeiro anúncio e consulte-se o seu site na internet e perceber-se-á até que ponto a gerência do boteco leva a peito o assunto, fazendo questão em que o seu trabalho assente no mais rigoroso profissionalismo.
Só que o Olé vai mais longe e joga com o secular ódio de estimação que nutrem pelos vizinhos argentinos. As promoções não se limitam a festejar as vitórias brasileiras, estendendo-se também aos golos que a Argentina venha a sofrer. Vai ser uma verdadeira festa, porque nessa altura a cerveja é de graça.
























