_____________________________________________________________________________________________________________________________

Os independentes

July 24th, 2009

independentesPS

Se a entrada de Inês de Medeiros para as listas do Partido Socialista às próximas legislativas não é surpresa – o facto de ter sido mandatária de Vital Moreira às europeias foi a antecâmara que o deixaria prever – a inclusão do ex-bloquista Miguel Vale de Almeida é daqueles coelhos que os socialistas costumam tirar da cartola, não por qualquer critério de coerência ideológica – se há coisa que o PS não tem é exactamente isso – mas por necessidade de chamar para o seu lado franjas não despiciendas do eleitorado, como neste caso acontece com homossexuais e lésbicas, de cujas causas se sabe que Vale de Almeida é activista.

Se, por um lado e para ser justo, me cabe destacar a posição que Vale de Almeida tem vindo a assumir na sistemática defesa da homossexualidade e dos seus direitos, uma causa ainda tão fracturante na sociedade portuguesa, não posso, por outro, deixar de assinalar aquilo que me parece ser uma peça do mais refinado oportunismo do mesmo Vale de Almeida, ao manifestar não apenas uma aproximação mas um claro namoro ao PS, com propósitos eleitorais. Leia-se o post «Talvez não sejamos muitos e muitas…» que publicou a 11 deste mês no seu blogue, e perceber-se-á por que digo isto.

Nele se vê, tal como também na justificação que hoje dá para a sua candidatura, um homem que se percebe querer um sistema mais justo e igualitário, é verdade, só que, tendo pavor a rupturas como se infere daqueles seus textos, não chega a compreender que é pela ausência de rupturas que a política do PS, pelo qual ele agora é (começa por ser) candidato independente, não consegue galvanizar o eleitorado de esquerda. E são justamente essas rupturas que são fundamentais e indispensáveis para se conseguir essa tal sociedade socialmente mais equilibrada, com muito maior distribuição de riqueza, logo muito mais justa.

Mas o pior de tudo é que Miguel Vale de Almeida já descobriu isso. E talvez por essa singular razão tenha abandonado o Bloco de Esquerda e não se importe, apesar de proclamar o contrário, deste «chove-não-molha», desta «saborosa alternância» entre PS e PSD que não nos tem levado a lado nenhum, nem nos vai tirar certamente nunca deste miserável cauda dos mais desgraçados países europeus, onde somos os últimos dos últimos.

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Um pouco mais de “chá”

June 21st, 2009

embaix-Israel

O embaixador de Israel, Ehud Gol, no nosso país desde Janeiro, deu esta semana uma entrevista à TSF, na qual não se coíbe de fazer recomendações a Portugal sobre aquilo que o nosso governo deve e não deve fazer no que respeita à sua política de relacionamento com o Médio Oriente.

O ministro Luís Amado, disse Ehud Gol, deveria ter-se deslocado a Israel quando visitou o Líbano e a Jordânia. O governo português, continua, não deveria ter recebido o vice-ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros “numa altura em que o regime iraniano estava a matar pessoas que se manifestavam pacificamente”. Portugal, finaliza, “se quiser ter um papel mais importante no Médio Oriente” pode continuar a visitar o mundo árabe, “mas visitem também Israel”.

Não discuto as razões que assistem ao embaixador israelita e que o levam a sentir-se incomodado com a política portuguesa para o Médio Oriente, nem sequer sei se essa política é que melhor serve os nossos interesses. O que o Ehud Gold não pode, para exercer uma pressão – que poderá ser legítima, condescendo – sobre o governo português, é utilizar a linguagem e o tom que utiliza. O seu posto pede-lhe um pouco mais de comedimento e moderação e a nossa sensibilidade, como cidadãos de um país soberano, exige-lhe um pouco mais de “chá”.

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Por que correm eles?

June 11th, 2009

bpp3a
< !img src="http://farm3.static.flickr.com/2458/3614058501_0b4eab35bf_o.jpg" width="130" height="263" alt="bpp3" />

Os clientes do Banco Privado Português clamam por tratamento igual àquele que foi dado aos do BPN, isto é, que seja o Estado português a garantir o dinheiro dos depósitos que têm no BPP ou, se preferirem, que o Estado descalce esta bota que só ao BPP cabe descalçar. No fundo e em síntese, querem que nos tornemos solidários com os riscos dos seus investimentos e, ao fazê-lo, que sejamos responsáveis colectivos pelo ressarcir dos seus prejuízos.

Compreendo as suas razões, poderia até, em última instância e se tivesse espírito de Madre Teresa, lamentar-lhes a sorte, mas recuso-lhes a solidariedade. Guardo-a para causas que eu verdadeiramente sinta que as devam merecer. Não é o caso, como passarei a explicar:

Recuemos a inícios de Novembro do ano passado.

Acordámos inesperadamente no meio de uma hecatombe financeira, com a banca de investimento e seguradoras dos Estados Unidos, instituições aparentemente das mais sólidas que havia à face da terra, a ruírem que nem castelos de cartas, a arrastarem consigo grandes e poderosas empresas, com todas as repercusões que a nível mundial se fizeram de imediato sentir. O ambiente era, não direi de pânico, mas de manifesta apreensão, com a generalidade das pessoas a temerem pela segurança dos seus empregos, pelo seu próprio futuro.

Logo no dia 2, face ao conhecimento da iminente ruptura de pagamentos por parte do Banco Português de Negócios, o Governo temendo que esse facto, a verificar-se, pudesse degenerar numa corrida incontrolada ao levantamento dos depósitos bancários, provocando o descalabro inevitável do sistema, decidiu-se rapidamente pela sua nacionalização. Esta medida – a única sensata que em meu entender se poderia ter tomado – transmitiu, como se previa, alguma tranquilidade ao mercado e a todos aqueles que temiam pelas suas poupanças e haveres.
leia
(more…)

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Cavaco Silva e a SLN

June 7th, 2009

cavaco_s

Nunca duvidei da honestidade do presidente Cavaco Silva. O facto de considerá-lo um homem de direita, limitado na sua visão do mundo, de marcante insensibilidade às questões sociais como aquela que caracterizou a sua passagem pelo governo, de ser, pelo que mostra, um homem sem grandes preocupações culturais e que parece nem sequer se preocupar com isso – consulte-se a página da presidência de República, leiam-se os seus discursos e perceber-se-á facilmente daquilo de que falo – não são razões suficientes para deixar de crer na sua honestidade.

A questão levantada a semana passada pelo “Expresso”, dando conta das acções da Sociedade Lusa de Negócios (detentora do BPN) que Cavaco Silva comprara em 2001, são em meu entender – e nisso partilho da opinião de alguns partidos políticos que se manifestaram a esse propósito – questões que só a Cavaco Silva dizem respeito.

O investimento, para quem não sabe, resume-se de forma sintética e breve: no ano 2001 o cidadão Anibal Cavaco Silva pretendendo investir parte das suas economias, resolveu comprar 105 mil acções da SLN ao preço de 1 euro por acção. Passados 2 anos, em 2003, comunicou por carta ao presidente do conselho de administração daquela empresa a sua pretensão em desfazer-se das acções, operação que se viria a concretizar ao preço de 2,4 euros por acções, resultando daqui uma mais-valia de 147 mil euros para Cavaco Silva.

Tudo dentro da mais cristalina normalidade, neste vai-e-vem accionista em que, diariamente, milhões e milhões de títulos mudam de mãos, provocando lucros incomensuráveis a uns e, necessariamente, o desepero de muito boa gente que perde.

Só que, nesta transacção do professor, há um porém que seria do mais elementar bom-senso esclarecer. Para nosso sossego e do próprio professor. E é o seguinte:

A SLN não estava, como nunca esteve, cotada em Bolsa. As suas acções não estavam pois subordinadas aos mecanismos de controlo por parte da CMVM, como estão as empresas cotadas. O valor das suas acções em 2001 era um valor fixado pela própria empresa, baseada não se sabe em que critérios.

Para empresas cotadas em Bolsa, o valor das suas acções é baseado na lei da oferta e da procura mas tendo como parâmetro orientador o Price/Earnings Ratio (P/E ou PER) que é um indicador utilizado para analizar o valor duma acção e representa a relação entre o seu preço e os lucros da empresa. É pois um mecanismo de controlo de que a Bolsa de Valores se rodeia para travar, nomeadamente, operações de pura especulação ou até mesmo ilegais.

A questão que poderei colocar agora é a de saber se o valor de 2,4 euros por que Cavaco Silva vendeu as suas acções em 2003, representava o seu valor real, reflectindo por conseguinte o tal PER e consequentemente os resultados dos exercícios da SLN dos anos precedentes, ou se, pelo contrário, esse valor englobava outros factores valorativos de que só Cavaco Silva teria sido beneficiário.

Anibal Cavaco Silva é economista, sabe certamente responder à questão.

Anibal Cavaco Silva é Presidente da República, tem todo interesse em ver a questão respondida.

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Os livradores

May 17th, 2009

cristo_rei

Nascida como resultado da visita que o cardeal Cerejeira fez em 1934 ao Rio de Janeiro, numa época em que a informação ou não circulava ou só a ela muitos poucos tinham acesso – a televisão só entraria em funcionamento no país e a título experimental no ano de 56 – a ideia, que o cardeal viria a lançar, da construção de um Cristo gigante, à imagem do Redentor do Rio de Janeiro, inaugurado 3 anos antes, e cuja imponência, indescritível magnificência e estonteante enquadramento paisagístico devem ter sido suficientes para deixar o cardeal sem dormir um número razoável de noites. As que ficou ainda na capital brasileira, mais aquelas que passou no paquete que o trouxe de regresso.

Transmitiu a boa nova aos seus acólitos mais directos. Imaginam-se os seus olhos a brilhar ao referir-se à estátua do mestre do outro lado de lá. Deve ter certamente argumentado, ao manifestar a sua aposta na ideia, que a grandeza do nosso império pedia um monumento à altura. Deve ter reforçado ainda que se um país que fora nossa colónia até há uns cem anos atrás tinha capacidade para projectar e construir uma obra daquela grandeza, nós, pais daquele país de mulatos, não nos poderíamos deixar ficar para trás.

E atrás desta argumentação tão pragmática e patriótica foi o episcopado português de carreirinha, que reunido a propósito da Pastoral Colectiva da Quaresma em 37, deu o seu inequívoco apoio à ideia, como se o país não tivesse outro tipo de necessidades mais prementes, como se o o rebanho de Deus não vivesse numa situação deplorável, reflexo também de uma cruel e sangrenta guerra civil mesmo às portas de casa, e como se o país não fosse, como aliás ainda hoje é, o mais atrasado do continente europeu.

Em 39 rebenta a 2ª Guerra Mundial, onde Portugal, numa confusa e muito duvidosa neutralidade, não entra. Reunidos em Fátima – imagina-se o ambiente – os bispos portugueses prometem a construção do monumento se o país se livrar do conflito. Este voto tem um duplo significado: ou entra na guerra e não há estátua para ninguém (eu chamo a isto chantagem nítida para com o altíssimo), ou não entra e há que desapertar os cordões à bolsa do povo, pois foi graças à intervenção divina que Portugal não sofreu as nefastas consequências do terrível flagelo e não bateu com os costados nas trincheiras da Normandia.
leia
(more…)

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Quem se segue?

April 3rd, 2009

pintodacosta2

Estão a multiplicar-se, como praga de gafanhotos em verão quente, os casos de pessoas importantes levadas à barra dos tribunais pelo Ministério Público e que, após julgamentos mais ou menos demorados, de exacerbado mediatismo, são declaradas inocentes.

Para não ir mais longe, foi Fátima Felgueiras há uns tempos, foi Avelino Ferreira Torres a seguir, foi hoje Jorge Nuno Pinto da Costa e, pelo andar da carruagem e a ver pelas amostras, há-de ser, daqui a nada, o autarca Isaltino. A que se seguirão outros, mais outros e ainda mais outros, num ciclo infindável de tramas indecifráveis.

Perante isto, a pergunta que eu faço só pode ser esta: estamos diante de um sistema judicial maleável – e dê-se a latitude que se quiser ao adjectivo – ou de um Ministério Público incompetente?

partilhar
Related Posts with Thumbnails

As crenças

March 21st, 2009

papa_angola

Como se sabe, há várias coisas que distinguem um papa do mais comum dos mortais. Uma delas é a sua inabalável crença. Não se sabe se sua santidade não terá momentos de fraqueza, daqueles que provocam a mais rasteira prostração a qualquer pessoa, mas pelo menos é essa a imagem, a das inquestionáveis certezas, a das mais irredutíveis convicções, que passa para cá daquelas paredes quase intransponíveis da sede da Igreja de Roma.

Ele é a crença num deus do qual grande parte dos habitantes deste planeta nem sequer sente necessidade de questionar-lhe a existência, pois tem problemas muito mais concretos e ingentes para ultrapassar e de cuja resolução depende a sua própria sobrevivência;

Ele é a crença que a homossexualidade é doença, quando se sabe – pois a ciência já o provou e muitos padres até o poderão atestar – que não senhor, que, acima de tudo, é uma opção consciente de vida e de estar na vida;

Ele é a crença (teimosa, obsessiva, pouco inteligente) de que o preservativo não é um remédio adequado para evitar a propagação do HIV, quando é do senso comum saber-se que a forma de contágio mais disseminada é por via das relações sexuais, e que o contraceptivo poderá ser, em muitas das circunstâncias, a única forma de resguardar a própria vida;

Ele é, finalmente, a crença, agora manifestada durante a sua visita a Angola, de que é possível acabar com a corrupção em África, quando se sabe que é da relação de dependência de um Sul subdesenvolvido e prostrado perante as atitudes discricionárias e arbitrárias de um Norte industrializado e rico, que se fertiliza o terreno para a proliferação das mais inimagináveis formas de corrupção e que é no primeiro mundo que deverá começar a batalha pelo fim dessa mesma corrupção.

No fim de contas, o que é mais confrangedor no meio de tudo isto, é que o papa, qualquer papa, sabe que as coisas são mesmo assim, mas continua teimosamente a fingir acreditar que o não são.
_____________________________________________________________
talvez_po

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Os lucros da Galp

March 5th, 2009

galp1

Se ontem foi a vez da Galp anunciar os seus resultados de 2008, com lucros da ordem dos 200 por cento só no último trimestre, hoje coube à EDP, declarar ter registado, no ano passado, um lucro que ascende aos mil milhões de euros.

Estas notícias descontextualizadas poderiam levar os menos avisados a supor que aqui tudo ia de vento em popa, que o desemprego seria coisa debelada ou, pelo menos, sob rigoroso controlo, que o sector económico florescia, que o PIB e o rendimento per capita seriam de fazer inveja ao melhor dos melhores países do norte da Europa, que o governo comandava a nau com a sapiência própria de marinheiro tirocinado nos mares mais alterosos, e melhor que aqui só mesmo em lado nenhum.

Quem fantasiasse panorama assim a partir de tais notícias, cedo aterraria no lodaçal da mais crua realidade – a antítese de tudo isso – porque, para além da crise quase endémica que está inerente à nossa condição de país periférico e sistematicamente mal gerido, encontramo-nos, como se sabe, submersos numa crise muito mais vasta, de contornos globais, para a qual todos fomos empurrados pelo mais indecoroso atropelo das mais elementares regras de conduta social, financeira e até política, por parte de um sistema que, para além da torpeza de princípios e da indignidade de que já deu provas, tem o arrojo de nem sequer questionar a sua assumida detenção da verdade absoluta.

Sabe-se, no caso da Galp, que parte dos seus chorudos lucros da parte final de 2008, se devem ao facto de o ritmo com que a petrolífera actualizava o preço dos seus combustíveis não acompanhar as sucessivas quedas do preço do petróleo nos mercados internacionais. Apesar dos protestos da opinião pública e até dos próprios revendedores, que dessa forma chamavam a atenção para a situação pouco ortodoxa que se estava a viver, o governo, que por via do imposto cobrado, e numa visão estreita da situação, tinha todo o interesse na manutenção do preço alto dos combustíveis, fingia que admoestava as companhias petrolíferas e protelava a resolução da situação.

Graças a isso, à delapidação do poder de compra da população feita à custa da manutenção de preços inflacionados dos seus combustíveis durante demasiado tempo, a Galp pode vangloriar-se destes lucros que, no contexto actual e dadas as circunstâncias, poderão ser considerados no mínimo como escandalosos. Com a conivência clara de um governo suportado por um partido que se arroga do progresso e do bem-estar social.

talvez_beatles

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Acabou-se a lagosta

January 29th, 2009

wef1A

Uma nota breve para referir o início dos trabalhos de mais um Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça. Trata-se da reunião magna que todos os anos os donos do planeta levam a efeito naquele país alpino, e onde estão também presentes chefes dos principais países desenvolvidos. Desta vez quarenta.

É, por assim dizer, uma reunião da nata do poder, e, podendo parecer injusto mas sabendo que não devo andar longe da verdade, o conclave anual de alguns dos responsáveis maiores pelo actual estado das coisas que neste momento aflige tanta e tanta gente no mundo e que num só dia – na terça-feira passada – provocou, tanto quanto se sabe, o despedimento a 48 pessoas por minuto.

O ano passado, tal como em anos precedentes, celebravam o seu encontro com champanhe, lagosta e caviar. E não é figura de estilo, era assim mesmo.

Este ano, em tempos de grave crise, e até porque a jactância poderia assemelhar-se a provocação, resolveram os convivas minguar os seus apetites, ficando-se pelo queijo, fiambre e vinho branco.

É sabido que este género de encontros tem servido apenas para afinação de estratégias destinados à consolidação do poder económico dos conglomerados que gerem os fluxos de capital que movem a economia à escala planetária.

Este ano, porém, os problemas que minam o sistema são de tal forma incontroláveis, as imensas dunas de areia que emperram a engrenagem são tantas, que Davos, para além da costumada feira de vaidades que nos habituou a ser, não poderá produzir mais nenhum outro efeito que não seja o de reduzir o consumo de lagostas. E ainda bem para elas, coitadas.

talvez_bbva

partilhar
Related Posts with Thumbnails

Quando tudo se desmorona

January 27th, 2009

things1a

Things fall apart, o livro que acabei de ler este fim-de-semana, não desvirtua, bem pelo contrário, o entusiasmo com que insistentemente me falaram dele. Retrata o momento de viragem de África perante a ocupação colonial.

Com o relato de um drama pessoal localizado no espaço e no tempo – finais do século XIX, África, Nigéria, uma tribo, um homem – Chinua Achebe, através da sua fluência, da sua escrita de desconcertante simplicidade, permite-nos, partindo do infortúnio que se abate sobre Okonkwo, um guerreiro Ibo, ter o distanciamento suficiente para ver as raízes de África a desconjuntarem-se com a intrusão violenta de um novo e estranho poder: o poder colonial.

Em Things fall apart ou Quando tudo se desmorona na tradução portuguesa, não é – e ainda bem para nós leitores – o Ocidente, com a sua visão etnocêntrica, a escrever sobre o continente africano. É África a falar sobre si própria, num discurso onde a vitimização nem sequer aflora ou se lhe adequa. Sente-se nessa escrita o grito pungente de quem se rebela contra aqueles que se querem apropriar daquilo que qualquer ser humano tem de mais profundo e de mais intrinsecamente seu: o sentimento de pertença, a sua própria identidade.

leia+1
(more…)

partilhar
Related Posts with Thumbnails