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Os meus nadas revisitados

March 4th, 2010

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Não sei o que me levou a reler este “nadas” que escrevi já há algum tempo. O facto é que esta regresso me leva a reconhecer-me tanto agora no sentido das suas palavras como na altura em que o escrevi – e não seria a primeira vez que isso não acontecia -, razão que me levou a largar, ao ler a última frase, aquele sorriso largo em que costumo abrir-me nos momentos de maior gozo interior, esquecendo, ou tentando escamotear por momentos, as minhas mais flagrantes limitações.


Perguntam-me, não sei a propósito de quê, o que faço nos meus tempos livres.

Espera certamente saber, quem me questiona, mais alguma coisa sobre os meus vícios, minhas secretas manias, uma ou outra libertinagem que eu suspeito de me acusarem ser dado a. Que não os tenho, proclamo. E se porventura os tivesse, era para não fazer nada, que é exactamente para isso que os tempos livres servem.

Que o meu nada, sublinho, não é o mesmo que aqueloutro das pessoas que se estiram displicentes, no terraço ou no jardim, à borda da sua picina, numa dessas chaise-longue de verga, acolchoadas a sumaúma por estofador bacharel, protegidos da torreira do sol que tem feito neste Verão, e noutros verões parecidos com este, debaixo do aconchego de um toldo azul-marinho ou verde-quase-persa comprados no iqueá, com uma birra imponentemente gelada numa mão, jogando, com outra, como se fossem malabares, tremoços sem casca para dentro das suas bocas, ou enxovalhando minúsculos troços de genuíno roquefort em tostas do pingo-doce. E naquela cabeça, ah, naquela cabeça, o cérebro delicadamente vazio para que as minhocas, no seu afã de desconstrução, possam fazer castelos de areia onde, em tempos – sustenta-se essa remota hipótese -, circulavam coisas vagamente parecidas com ideias.

Mas não, o meu nada não é desses. O meu nada é feito de rendilhadas lembranças, de frágeis memórias, de eus que vou compondo e burilando nas perdidas veredas das minhas desilusões, medos e sobressaltos, ou, quem sabe, em meus próximos futuros. E onde, definitivamente, não cabe nem o meu próprio mundo nem o que outros chamam de seu. Aí, apenas as minhas imaculadas fantasias entram.

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Uma resposta em “Os meus nadas revisitados”

  1. oppidana Says:

    Por falar em fantasias e pequenos nadas……escreves bem!…..Gosto!

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