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O da Boa Memória

June 30th, 2010

djoaoIa

João Vaz de Carvalho é um artista plástico que muito aprecio.

E não pensem que, por vir hoje aqui falar dele, estarei a tentar passar ao largo da derrota de ontem de Portugal contra a Espanha no Mundial de Futebol ou, muito menos, a tergiversar sobre aquilo que os mais maldosos possam pensar tratar-se de uma ignóbil retaliação do governo português contra os nossos vizinhos – tipo parada e resposta -, ao utilizar, por volta do meio-dia de hoje, a “golden share” que tem na PT para estragar o negócio aos nuestros hermanos da Telefónica na Vivo do Brasil.

Não. Se não falo nisso é porque João Vaz de Carvalho e as suas criações me cativam mais a atenção neste momento.

De estilo muito particular e peculiar, facto que torna a sua obra imediatamente identificável, Vaz de Carvalho poderia e pode ser classificado como pintor de talento. Correndo o risco de parecer injusto, mas não sendo, eu prefiro, contudo, inclui-lo no muito exclusivo universo dos ilustradores. Quero acreditar ser nas águas da ilustração que JVC prefere navegar, dando livre curso ao seu – perdoe-se-me o hipotético exagero – delirante imaginário onde, não apenas os temas que aborda, mas também a palete das cores que lhe povoaram decerto a infância, irrompem, desarvoradas, a vestir os personagens que como que enxameiam os suportes que utiliza para expressar a sua criatividade.

Artista premiado, o seu trabalho é perpassado, de fio-a-pavio, por um humor irreverente, fruto de uma inocência a raiar o fingidio. Destaco, para além de muita da sua obra que pode ser vista no seu site, este D. João I, publicado em 11 de Abril no suplemento infantil “Terra do Nunca” que acompanha a revista Notícias Magazine (Diário de Notícias/Jornal de Notícias), e que não tenho dúvidas em classificar como paradigma do seu estilo inconfundível.

Da sua página pessoal, deixo também aqui aquilo que João Vaz de Carvalho escreveu sobre si próprio em 2005 e que poderá ajudar um pouco a perceber a sua obre e o seu estilo.

Nasci no Fundão em 1958. A casa do meu avô era enorme e no quintal, cheio de cerejeiras, fartei-me de brincar com os meus irmãos. Havia os bichos simpáticos – cães, gatos, coelhos, galinhas e pintaínhos, e pardais que tinham o dom de adocicar as ginjas – e havia os antipáticos – aranhas gordas, lagartas peludas, minhocas enormes, escaravelhos da batata, bonitos, às riscas, que faziam mal às ditas. Nos Invernos era a neve, causadora de insónias, pois tinha o mau costume de cair à noite e o som da neve a cair não se pode imaginar, tem que se escutar. Lembro-me dos pêssegos e das paisagens que a minha mãe ainda hoje pinta. Lembro-me da paixão pela música do meu pai. E da do meu avô que tinha a forma de uma banda. Encostado ao balcão da loja de solas e cabedais de que recordo ainda hoje aquele cheiro característico, copiava músicas dias a fio, com esferográficas BIC, azuis e vermelhas, para bandas inteiras. Já tarde percebi de que forma perdurável todas essas e outras emoções me tinham marcado. Vivendo admirado, dei comigo chegado ao destino improvável de me tornar eu próprio um cultivador adulto desses prazeres. Entre eles, o humor, um prazer extraordinário.
Tenho um amigo que diz que o humor salva e que eu, tendo-o feito descer às profundezas de mim mesmo, já estarei salvo. Veremos. A verdade é que, como sou incapaz de olhar esses prazeres com nostalgia, tomei a decisão de vivê-los todos os dias, regando-os diariamente e tentando divertir-me o mais possível. Percebi que, com trabalho, os desenhos dos lápis e as cores das tintas, conseguem propagar essas aventuras saborosas, sejam elas passadas ou de agora. Ao fim e ao cabo, e sem me dar conta disso, acabei por coleccionar as peças de uma espécie de Meccano de vivências, com as quais julgo que estou finalmente pronto para construir o que quiser.
E sinto-me capaz de erguer um mundo com sentido. Lá, além de mim, existem três habitantes permanentes, uma mãe e duas filhas, rodeadas por um universo de sensações que as está a marcar para sempre como aconteceu comigo. São incondicionais desde o primeiro dia e só elas tornam este universo inteiro.

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Black Gold

June 26th, 2010

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A Gulbenkian tem a decorrer, desde o Verão do ano passado e a prolongar-se até ao final de 2011, o programa Próximo Futuro, que abarca a investigação e a criação culturais que se desenvolvem não apenas na Europa, como também na América Latina, Caraíbas e em África.

Programa multidisciplinar, abrangendo diversas áreas – e consulte-se o site aqui para que se possa ter uma muito mais vasta informação – das quais destacaria o cinema e a próxima apresentação, já no dia 7 de Julho, do filme Black Gold, um documentário que retrata a realidade da comercialização do café e dos astronómicos lucros que arrasta, que, tal como facilmente se depreenderá, não beneficiam quem o produz mas sim quem age como intermediário neste negócio de dimensões inimagináveis.


Título: Black Gold
Realização: Marc Francis e Nick Francis (Reino Unido)
2006, cor, 78’

As multinacionais do café dominam os nossos centros comerciais e supermercados e comandam uma indústria avaliada em mais de 80 mil milhões de dólares, fazendo deste produto a mercadoria comercial mais valiosa do mundo a seguir ao petróleo.

Nós, consumidores, pagamos bem os nossos galões e cappuccinos, mas, os cultivadores de café, continuam a receber tão pouco deste valor que muitos se vêem forçados a abandonar os seus campos. É na Etiópia, berço da cultura do café, que o paradoxo se torna mais evidente.

Tadesse Meskela tem como missão salvar da bancarrota 74 mil cultivadores em luta. Enquanto estes homens se esforçam por colher café da mais elevada qualidade do mercado internacional, Tadesse percorre o mundo à procura de compradores dispostos a pagar-lhes um preço justo. No contexto da passagem de Tadesse por Londres e Seattle, percebe-se o enorme poder dos negociantes multinacionais que dominam o negocio mundial do café.

Os commodity traders de Nova Iorque, o comércio internacional de café e as negociatas dos líderes do comércio, na Organização Mundial do Comércio, representam bem os vários desafios que Tadesse enfrenta, na demanda por uma solução duradoura para os seus agricultores.

(Texto retirado do programa)

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Treinar e jogar

June 19th, 2010

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Saramago

June 18th, 2010

saramago

Hoje Saramago foi.

Dele apenas me apetece repetir agora aquilo que disse sobre blogues: “O meu blog não tem ideias em particular. Os sismógrafos não escolhem os terremotos, reagem com os que vão ocorrendo. O blog é isso: um sismógrafo”, e o texto que leu no encerramento do II Fórum Social Mundial, realizado em 2002, em Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. Intitulado Da Justiça à Democracia, passando pelos sinos, reza assim:

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tomaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”

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Isto é uma palestra sobre uma certa forma de intolerância e o inconformismo de quem acorda. E, para além de tudo o mais, constitui-se como um belo exemplo de uma tentativa bem sucedida de superar problemas que são quase tão velhos como a natureza humana.

Vale a pena ver e meditar sobre o que é dito pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, sobre o que se argumenta, sobre a razão da própria racionalidade. São dezoito minutos e quarenta e nove segundos de uma apaixonante comunicação. E tão simples que ela é.

Está legendado em português, bastando que para isso se seleccione o nosso idioma em View Subtitles.

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Promoções

June 16th, 2010

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O «Boteco Olé», na rua Conde de Irajá, no Rio de Janeiro, tenta cativar clientes anunciando promoções que giram, regra geral e com alguma lógica, em torno do comer, do beber e do futebol. Provavelmente por esta mesmíssima ordem.

Passaram já as fronteiras do Brasil as suas apelativas e irrecusáveis ofertas que têm por matriz orientadora este Mundial de Futebol e como razão primeira os desafios em que a selecção brasileira participa. Atente-se neste primeiro anúncio e consulte-se o seu site na internet e perceber-se-á até que ponto a gerência do boteco leva a peito o assunto, fazendo questão em que o seu trabalho assente no mais rigoroso profissionalismo.

Só que o Olé vai mais longe e joga com o secular ódio de estimação que nutrem pelos vizinhos argentinos. As promoções não se limitam a festejar as vitórias brasileiras, estendendo-se também aos golos que a Argentina venha a sofrer. Vai ser uma verdadeira festa, porque nessa altura a cerveja é de graça.

Boteco-Ole_Argentina

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De férias na Umbria

June 13th, 2010

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Violeta anda de férias. Em abono da verdade, desde que nasceu, e já lá vão seis meses e meio, ela não sabe fazer outra coisa que não seja isso. Ou quase só isso. Hoje, em terra dos avós paternos, anda por Gubbio.

Nas encostas do Monte Ingino – sei-o agora porque me fui informar -, Gubbio é uma das mais antigas cidades da Umbria, na Itália central, com anos de séculos, extremamente bem preservada e rica em monumentos que testemunham o seu passado e a sua história medievais.

O Palácio dos Cônsules, construído nos princípios do século XIV, é o símbolo da cidade e um dos muitos monumentos em que Gubbio é pródiga, tal como toda esta Itália aliás, país tão próximo de nós, com tantas afinidades connosco, e infelizmente tão desconhecido e tão longínquo da maioria dos portugueses.

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“L’Anastasie” é o mais recente projecto de Charlotte Cambon como resultado dos seus estudos na escola de cinema de Gobelins, em França. A ela e aos seus colegas foi-lhes distribuido o tema “censura e liberdade de expressão” para desenvolverem numa curta metragem de animação. Eis aqui o resultado final, conseguido em apenas cinco semanas de trabalho.

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Bafio?…

June 10th, 2010

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Desenho de João Abel Manta sobre foto de European Pressphoto Agency



Vi, de passagem na televisão, enquanto tomava um pequeno-almoço tardio, as comemorações do 10 de Junho.

Fazê-las girar em torno de uma parada militar – para além de constituir a forma mais original de ilustrar a criatividade de quem demonstra ser exactamente o exemplo acabado da sua ausência – corresponde, a meu ver, à total inversão daquilo que deveria ser o espírito da efeméride, em que pretensamente se comemora Portugal (o seu Povo), Camões (a sua Língua) e as Comunidades (a sua Diáspora).

Esse militarismo visível nas comemorações, tentando mostrar um poderio que a nossa condição de país periférico não comporta, tentando enaltecer o belicismo de quem é pacífico por sentimento, exibindo veteranos de guerras de um império que nunca foi, porque nunca deixaram que o fosse, lembraram-me tempos que pensei já estarem enterrados há muito.

Hoje, decididamente, andou um cheiro a bafio no ar. Mas como sua excelência gosta…

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História Local

June 9th, 2010

MemóriasParoquiais

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